Declarações postas no papel

Movimento no 'Escreve Cartas' do Poupatempo aumenta cerca de 16% nesta época do ano. Voluntários ajudam namorados, casados, separados...

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

O homem chegou com o semblante fechado. Apoiou as mãos no balcão, soltou um "boa tarde" regulamentar e afundou na cadeira. Estava angustiado. "O senhor gostaria de escrever uma carta?", perguntou a atendente. "Quero resolver isso logo", ele rebateu, num português que não parecia daqui.

Francis Ngawa, professor francês de 34 anos, procurou anteontem o programa Escreve Cartas, no Poupatempo de Itaquera, zona leste de São Paulo, para expressar seus sentimentos - já faz um mês que ele anda contrariado, sem saber como convencer Luzia, a sua Lu, a voltar a falar com ele. E o seu português não ajuda. "No Dia dos Namorados, bateu vontade de pedir para escreverem o que não consigo dizer bem", explicou, já relatando sua história à voluntária Márcia Calixto.

"Lu,

Sei que não estamos numa boa fase, e que no último mês não nos entendemos. Mas gostaria que a gente voltasse a ser um casal. Por isso, espero do fundo do coração que você acredite na sinceridade desse sentimento."

E assim seguiu Francis, explicando à Lu que espera que o relacionamento de 5 anos continue. A expressão de Francis suavizava, à medida em que Márcia lia a carta. No fim, ele sorria.

Logo que o francês saiu, sentou-se no lugar um senhor tímido, que demorou a se explicar - soltou, enfim, que buscava uma "carta para sua menina". "É para acompanhar o presente", explicou o aposentado Sabino da Silva, de 79 anos. Queria "um outro presente", além do forno elétrico que comprou para a mulher, Josefa. E lá foi a voluntária Tiyoko Samejima, providenciar o acompanhamento:

"Querida Josefa,

Quantos anos se passaram desde que saímos de Anadia, em Alagoas, e logo após nos casamos? São quase 45 anos dividindo nossas vidas. Os filhos chegaram e nos encheram de alegria. Por isso, querida Josefa, presto minha homenagem."

No fim, Sabino havia deixado a timidez de lado. "Ela vai gostar muito disso aí, viu? É muito sensível, vai se emocionar", disse.

Em dias que antecedem datas comemorativas, o movimento no Escreve Cartas aumenta - no mês dos namorados, informa o governo, a procura em Itaquera (882 cartas ao mês) aumenta cerca de 16%, beirando os 1 mil atendimentos.

"As pessoas não esperam receber a atenção que damos. Acabamos servindo também como psicólogos", diz a voluntária Tiyoko, há um ano escrevendo cartas. "São sonhos e sentimentos que colocamos no papel."

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