AMANDA PEROBELL
Mulheres com as mais variadas formas físicas aprendem a gostar e a valorizar o próprio corpo ao adotar a dança acrobática de boates AMANDA PEROBELL

De sensual, pole dance vira arma de empoderamento

Mulheres com as mais variadas formas físicas aprendem a gostar e a valorizar o próprio corpo ao adotar a dança acrobática de boates

Priscila Mengue, O Estado de São Paulo

24 de junho de 2017 | 19h12

No Dia das Mães deste ano, Carlos Eduardo, de 9 anos, chegou da escola com um cartão na mochila. O bilhete trazia um desenho de sua mãe, Lelaine Conceição de Oliveira, de 30 anos, e a frase “Você é uma diva.” A homenagem ainda emociona a bancária, que diz ter encontrado na admiração do garoto todos os motivos para continuar a atividade que a ajudou a retomar a autoestima: pole dance. “O meu filho me acha poderosa. E, depois disso, nenhuma crítica importa.”

Em 2012, Lelaine visitou uma escola que oferecia aulas de pole dance, mas mal passou da porta. A conotação sexual e a necessidade de utilizar roupas curtas a assustaram. A mudança ocorreu quatro anos depois, por acaso, ao fazer um workshop de “Dança para amar o seu corpo”, que reunia vários estilos musicais, do twerk ao axé, e era ministrado por Graziela Meyer, de 38 anos, fundadora da escola Maravilhosas Corpo de Baile.

“Naquele dia, a Grazi falou uma coisa que me marcou: nada marca tanto a nossa história quanto o nosso corpo, e o nosso corpo não deve ser tratado como um problema”, lembra. “Naquela hora, pensei: ‘É exatamente isso’. Eu me incomodava com as minhas estrias e com a minha ‘barriga imperfeita’, mas elas contavam a minha história, que eu gerei uma vida, tive um filho, que é a parte mais importante da minha vida.”

A bancária relata que, no mesmo período que iniciou pole dance, também começou a fazer a transição capilar, do alisado para o crespo. “Foi um momento de transformação completo, de aceitação. Hoje me sinto linda – e encontrei a sensualidade que achava não ter.”

O relato de Lelaine se aproxima ao de outras frequentadoras do Maravilhosas, de acordo com Graziela, que lançou o grupo em maio de 2016. “Ele foi criado para mulheres, para mostrar a força dos corpos femininos, celebrar todos os corpos femininos”, ressalta.Embora a prática tenha origens na Índia e na China antigas, a professora defende a valorização das mulheres que ajudaram a popularizá-la: as dançarinas de boate. “Pole dance tem o lado acrobático, que exige força e parece uma ginástica, mas sempre foi ligado à dança, a movimentos de giro, e começou a se popularizar em shows burlescos em circos nos anos 30, não tem porque esconder isso. Você hoje poder pagar para aprender é empoderador, marca a autonomia da mulher sobre o seu corpo”, diz ela.

Além do aspecto do esforço físico, a atividade tem o potencial de unir as mulheres. “Em uma das minhas primeiras aulas, muitas estavam envergonhadas por usar roupas curtas, com medo de julgamento”, lembra Lelaine. Ela afirma, contudo, que depois de uma conversa, na qual explica que o tipo de vestimenta é essencial para não escorregar da barra, ele viu que “de repente”, já estava “todo mundo de biquíni rolando no chão”, diverte-se. 

“São meninas completamente diferentes, aprendendo as mesmas coisas. Uma olha para a outra e diz: ‘Você é maravilhosa!’ Daí a outra responde: ‘Maravilhosa é você’.”

Carnaval

 A professora conta que ela mesma aprendeu a tentar colocar um padrão nas aulas. Como exemplo, cita um bloco de carnaval em que reuniu alunas, no qual encomendou fantasias para todas, que foram do tamanho 32 ao 54. “Tem gorda, com coxão, que chega aqui sambando na cara das meninas magras. E é isso que me interessa: treinar para ser feliz.”

Um exemplo é a produtora de moda Daylane Cerqueira, de 29 anos. Por estar acima do peso padrão, muitas pessoas que a conhecem se surpreendem quando ela comenta que faz pole dance. “Muita gente acha que gordo não pode fazer nada, não tem força para nada, não tem jeito. E isso foi um desafio para mim. Eu pensei: ‘Vou fazer e vou provar que estão errados’”, lembra. Em apenas três meses de aulas, ela faz diversas acrobacias, como a que se sustenta de costas na barra.

Desafiador

 Para a produtora de moda, um dos motivos para a popularização da atividade é por ela ser desafiadora e trazer um tipo de satisfação que atividades como a musculação e o treino funcional não trariam. “Exige dedicação e foco, mas você consegue acrobacias que não imaginava, se percebe mais forte. Estou cada vez mais segura. Talvez um dia eu olhe para a minha sala procurando um lugar para colocar uma barra.”

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    Como esporte, dança tem regras de ginástica e nado

    Quem explica é Vanessa Costa, uma das responsáveis pela criação do código de arbitragem da categoria

    Priscila Mengue, O Estado de São Paulo

    24 de junho de 2017 | 19h00

    Foi durante sua lua de mel que Vanessa Costa, de 36 anos, descobriu que queria aprender pole dance. A ideia surgiu por acaso ao assistir a um espetáculo do “estilo Cirque du Soleil”. Cerca de um ano depois, em 2008, trocou a carreira de produtora de políticas públicas pela de atleta de pole esporte. Com a experiência fundou a Federação Brasileira de Pole Dance em 2009, que, de cinco fundadores, hoje reúne mais de 300 escolas filiadas.

    Uma das responsáveis pela criação do código de arbitragem da categoria, ela explica que as regras foram inspiradas nas da ginástica olímpica e do nado sincronizado. 

    “São modalidades que reúnem rotina coreográfica e também uma parte técnica, com dez movimentos obrigatórios de diferentes graus de dificuldade. Avaliamos a qualidade da execução, se foi precisa, e, a partir disso, damos uma pontuação”, explica Vanessa, que é organizadora do campeonato brasileiro da modalidade.

    Hoje, a categoria reúne variantes que vão do “pole fitness” até o “glamour” – que requer uma coreografia –, passando pelo “art”, que conta uma história, o “exotic”, que é mais sensual, e o “street”, que é realizado em postes e outros equipamentos da rua. 

    “Não deixa de ser a mesma modalidade. Todas as vertentes são acrobacias em uma barra vertical de ferro”, explica Vanessa, que sonha com o dia em que a prática se tornará um esporte olímpico.

    Adesão masculina

    Como Vanessa relata, o pole dance reúne também adeptos nos públicos infantil, sênior e masculino. Esse é o caso de Michel Nascimento, de 25 anos, que é atleta e professor da modalidade desde 2013. Além de se apresentar na categoria “glamour”, ele também já organizou eventos de “pole street” na Avenida Paulista, com performance em palco móvel e postes da via. 

    “É uma forma de trazer visibilidade. Não é só feito por mulher, não é só para sensualizar, tanto que o código de arbitragem até proíbe tirar a roupa. Não tem por que ainda haver tabus hoje em dia”, ressalta.

    PARA ENTENDER

    Modalidade é comum na Índia

    O pole dance moderno tem influências de vários países. Há quase mil anos, na Índia, é praticado o mallakhamb, espécie de ginástica em um poste de madeira com cordas, muito praticada por homens. O formato moderno também foi influenciado pelo estilo burlesco francês e por apresentações de bailarinas americanas das décadas de 1920 e 1930. Há mobilizações para tornar o pole esporte olímpico. 
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