De madrugada, imperadores passam pelo HC e ganham fichas médicas

Três representantes da família imperial brasileira foram fichados no Hospital das Clínicas para pesquisa

Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2013 | 13h02

SÃO PAULO - Em três madrugadas diferentes do ano passado, passaram pelo Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo os mais velhos pacientes da história. E por ordem de idade. Primeiro, Leopoldina, uma distinta senhora então com 215 anos. Em seguida, Pedro, um cavalheiro um ano mais novo. Por último, Amélia, de 200 anos.

Como qualquer um dos cerca de 2 milhões de pacientes que passam por ano no HC, os três representantes da família imperial brasileira - o imperador d. Pedro I, sua primeira mulher, d. Leopoldina, e a sua segunda mulher, d. Amélia - foram fichados. "Imagina o susto do médico residente ao escrever o nome completo do imperador", brinca o médico Paulo Hilário Saldiva, chefe do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, um dos membros da equipe que atendeu aos ilustres pacientes. "Tem médico que se gaba por ter atendido o Lula... O imperador é meu paciente." Depois do atendimento, para manter a confidencialidade do estudo, as três fichas médicas foram criptografadas no sistema do HC e o imperador e as duas imperatrizes foram transformados em pacientes anônimos.

Doze cientistas, de especialidades diferentes, participaram da realização dos exames nas três noites em que, respectivamente, Leopoldina, Pedro e Amélia realizaram os check-ups. Havia radiologistas, patologistas, médicos de diversas áreas. Eles realizaram diagnósticos de ponta, utilizando equipamentos de última geração. "Sabe aquela história que hospital tem duas portas, a do SUS e a do particular? Então, demos um tratamento particular para eles, um tratamento imperial", compara Saldiva - que calcula que tais exames, se custeados por um paciente particular, custariam cerca de R$ 150 mil.

Equipamentos. Os restos mortais dos três nobres foram submetidos a uma tomografia computadorizada com dupla energia. "O equipamento foi regulado de modo a obter uma imagem com cerca de 10 vezes mais resolução do que costumamos fazer com um paciente normal", compara Saldiva. Isso por dois motivos: primeiro porque no caso de mortos não há problema com a radiação acumulada. A outra razão é que, como dificilmente esses corpos serão exumados novamente, é preciso garantir um banco de dados o mais preciso possível para possibilitar estudos futuros.

"Basicamente, o equipamento atravessa a pessoa com um feixe de Raios X. Em geral, essa varrição é feita com cortes de 1 mm. No caso da família imperial, ajustamos para cortes de 0,6 mm", explica o médico radiologista Edson Amaro Júnior, coordenador de neuroimagem funcional da Faculdade de Medicina da USP. "Assim, eles foram varridos da cabeça aos pés na melhor resolução possível. São equipamentos de ponta para personagens históricos. E o casamento de passado e futuro deu certo."

Obtidas as imagens, elas foram processadas por cerca de quatro semanas. "O material ocupou praticamente um servidor inteiro da radiologia, por causa ao tamanho das imagens", conta Saldiva.
No caso de d. Pedro I, como os ossos haviam passado anteriormente por um processo de decapagem - ou seja: uma "limpeza" dos resíduos - foi possível realizar ainda um outro exame, complementar. "Fizemos também uma ressonância magnética, que possibilidade analisar de outra maneira questões como a textura dos ossos", diz Amaro.

Os exames ainda são o primeiro passo de estudos que devem acontecer a partir de agora. Mas já possibilitam algumas conclusões. "Claro que nenhuma é definitiva, já que é um estudo em andamento que ainda permite novas interpretações", pondera Amaro.

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