De lotação na zona leste a hits de novelas

Marcelo Jeneci sai de Guaianases, conquista medalhões da música brasileira, chega ao horário nobre e agora quer tocar no ''rádio chiado da periferia''

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2011 | 00h00

A construção do universo musical e artístico de Marcelo Jeneci se deve muito às músicas tocadas no som chiado da rádio da lotação, em Guaianases, extremo leste de São Paulo, que ele usava com frequência para chegar em casa. O músico quer, o mais breve possível, acertar as contas com o passado: "Esse é o meu objetivo, voltar para casa, para o lugar de onde eu vim, e ouvir minha música tocando na lotação", declara ele, aos sorrisos.

Depois de dez anos tocando na banda de artistas consagrados, Jeneci apresenta agora o seu primeiro disco da carreira, Feito pra Acabar - em elogiada fase de lançamento. Talentoso e versátil, já coleciona composições com José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Vanessa da Mata e Arnaldo Antunes. Com os dois últimos, tem trabalhos que emplacaram em novelas globais: Amado, com Vanessa, sua primeira composição a ser gravada, e Longe, parceria com o ex-Titãs. Jogando em posições variadas - piano, teclado, sanfona e violão -, Jeneci é, aos 28 anos, uma das grandes apostas de uma nova geração da música brasileira que vem despontando em São Paulo, ao lado de nomes como Tulipa Ruiz e Thiago Pethit. Não por acaso, esse primeiro trabalho fora selecionado entre mais de 850 candidatos pelo Natura Musical - programa de incentivo à música que patrocinou a gravação da forma que Jeneci sempre sonhou.

As coisas estão dando certo, Jeneci sabe disso, mas não parece deslumbrado. Hoje, divide seu tempo entre os shows de Arnaldo Antunes, cuja banda ele integra, no teclado, e sua carreira. Mantém a humildade enquanto fala e ainda se impressiona em ter parceiros tão estrelados, mesmo sem nunca ter ido à universidade. "Tanto o Wisnik quanto o Tatit e o Arnaldo sempre fizeram questão de falar que era uma troca, que acontecia algo de igual para igual. Eu não acho que é de igual para igual, eles é que dizem", brinca Jeneci, considerando que está entre professores da USP e poetas reconhecidos.

O multi-instrumentista não é do tipo que acredita em acasos. Para ele, as coisas começaram lá atrás, nos sons da infância. "Não dá para pensar na minha carreira sem que seja a extensão das outras gerações, desde meus avós que saíram de Sairé, em Pernambuco, e vieram morar aqui em São Paulo, no Aricanduva", diz ele. "Tive a sorte de crescer em uma família feliz, que consumia muita coisa popular." Ele destaca a influência da canção popular, a presença das músicas de Roberto Carlos nos alto falantes de uma casa movimentada e cheia de gente como vital para sua formação. "É mais claro nas minhas músicas as influências que eu não escolhi."

Telemensagem. Jeneci nasceu no Aricanduva, zona leste, e, aos 7 anos, mudou-se com os pais e o irmão para a Cohab Juscelino, em Guaianases. Foi lá que cresceu, aprendeu a tocar em um órgão construído pelo pai, Manuel - uma espécie de professor Pardal, como Jeneci fala carinhosamente, que aprendeu eletrônica intuitivamente. Para sustentar a família, conserta de eletrodomésticos a sanfonas.

Aos 15 anos, já prodígio no teclado, teve seu primeiro ganho com a música. Compôs trilhas sonoras para telemensagens - recados amorosos enviados por telefone que fizeram sucesso na periferia de São Paulo nos anos 90. Sempre autodidata, foi se desenvolvendo na música e mergulhando no sonho de viver dela. "Participava do coral, tocava na igreja, nas festas do sorvete e continuava com as telemensagens. Também ficava me exibindo para os amigos que meu pai levava em casa." Para impressionar as visitas, ensaiava temas cascudos para dedilhar ao teclado, como se nada quisesse.

O truque deu certo e a música virou profissão ainda antes da maioridade. Um dos clientes do pai - o acordeonista Toninho Ferragutti - chegou com a notícia de que Chico César, no auge da carreira, procurava um tecladista que também tocasse sanfona. O garoto se apresentou e conseguiu a vaga, mesmo sem ainda dominar o fole. Conseguiu um instrumento emprestado do mestre Dominguinhos, outro cliente do seu Manuel, treinou e caiu na estrada.

Outros trabalhos foram surgindo. Com a onda do forró universitário, por volta do ano 2000, começou a se desdobrar nas noites da Vila Madalena e Pinheiros com a sanfona no ombro. Chegava de Metrô, com o instrumento a tiracolo. "Depois dos shows, de madrugada, atravessava a cidade de metrô. Cruzando a Linha Vermelha, comecei a perceber que São Paulo é um lugar que recompensa o esforço, cedo ou tarde."

A agenda começou a apertar e as viagens de metrô e lotação até Guaianases se tornaram cansativas e contraproducentes. Decidiu trocar a zona leste pela oeste em 2002. Casado há 4 anos, Jeneci mora com a mulher em uma casa grande, com plantas e cachorro, no Alto da Lapa. Gosta do bairro, das tantas árvores das ruas, que tanto fazem falta na zona leste. Cumprimenta os vizinhos e estranha o número tão baixo de pessoas passeando a pé. Em um desses passeios, diz que não conseguiria sair da cidade. É como se fizesse parte de todo lugar. Fala sobre um longo passeio pela capital. "Seria até um ótimo videoclipe. Pegava a lotação, atravessava São Paulo até Guaianases", diz ele, em um misto de reflexão e planos.

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