Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

De jornaleiro a dono da maior feira de HQs

Jorge Rodrigues organiza a Fest Comix, principal evento de quadrinhos da América Latina, cuja 18ª edição termina hoje

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2011 | 03h09

O celular de Jorge Rodrigues não parava de tocar na quinta-feira. Mas ele não parecia importar-se, mal parecia notar tamanho corre-corre. É sempre assim nos dias que antecedem a Fest Comix - feira de quadrinhos criada pela loja de Jorge em 2001, que acabou se tornando a maior do gênero na América Latina. A 18.ª edição do evento, que começou sexta, pode ser visitada até hoje no Centro de Convenções São Luís, na Avenida Paulista.

"E pensar que a primeira fizemos na nossa própria loja, para um público de 200 pessoas", lembra Jorge. "Hoje são 200 pessoas que trabalham no evento", diz, frisando o 'trabalham'. "E de visitantes já são mais de 15 mil."

Mais do que sinal do sucesso pessoal do empresário, a Fest Comix é uma amostra do tamanho desse mercado no Brasil. São 400 mil títulos à venda na feira, muitos lançados por editoras tradicionais. Um lucrativo e estranho universo povoado por super-heróis, personagens japoneses (muitos erotizados) e até versões coloridas de clássicos da literatura mundial - de Allan Poe a Machado de Assis.

De Angola para SP. Nascido em Caluquembe, Angola, Jorge chegou ao Brasil em 1975, aos 3 anos de idade. Seu pai, Camilo Reis Rodrigues, de ascendência portuguesa, achou mais prudente abandonar o país - que vivia o início de sua longa guerra civil, que terminaria somente em 2002. Deixou seu bem sucedido armazém - onde vendia de agulhas a tratores - e, depois de ir até a África do Sul de carro e de lá embarcar rumo ao Rio, chegou a São Paulo com mulher e oito filhos. Aqui, instalaram-se na zona norte, na Vila Nova Cachoeirinha.

O mundo dos quadrinhos chegou até Jorge graças a seu irmão, Carlos. Sete anos mais velho, no início dos anos 1980 ele começou a trabalhar em uma banca de jornais na Rua da Consolação. Juntou dinheiro e, em 1986, montou sua própria banca, na Alameda Lorena, nos Jardins. "Eu era adolescente e ia sempre ajudá-lo. Comecei a ficar maravilhado pelos gibis", conta.

Crescimento. Mas a concorrência entre jornaleiros da região era grande. Foi quando Carlos - também fã de quadrinhos - teve a sacada: especializar-se no ramo, trazer títulos importados de difícil acesso, fidelizar clientes que também curtissem o segmento. "Em pouco tempo, tínhamos 200 clientes que pagavam por mês, encomendando as revistinhas que queriam. Como se fosse uma assinatura", lembra Jorge. A banca teve de aumentar: de 4,5 m² para quase 7 m². Nem assim foi suficiente. Em 1992, decidiram alugar o térreo de um imóvel na Alameda Jaú. Até 1998 seguiram com a banca e a loja, batizada de Comix. Logo, logo, tinham os três pisos do imóvel ocupados pela loja.

Nessa época, os negócios já estavam a cargo de Rodrigues, hoje com 38 anos. Seu irmão foi saindo aos poucos da administração da loja - montou estúdio de editoração e editora de quadrinhos, rompendo totalmente o vínculo com a Comix em 2009.

"Dá tanta dor de cabeça, são tantos fins de semana de trabalho, que nem sei se vale a pena. Mas no fundo mantenho a loja porque sou apaixonado por quadrinhos", comenta. Pai de quatro filhos, Jorge mora perto do Horto Florestal, na zona norte, e gosta de aproveitar o tempo livre para passear com a família no próprio Horto ou no Parque da Água Branca, na zona oeste. "Queria que meus filhos também gostassem de quadrinhos, mas apenas o caçula (de 7 anos) demonstra interesse", lamenta. Seu pai - de 77 anos - e dois de seus irmãos também trabalham na administração da loja.

Serviço:

18ª FEST COMIX: CENTRO DE CONVENÇÕES SÃO LUÍS: RUA LUÍS COELHO, 323. HOJE, DAS 10H ÀS 16H. INGRESSOS: R$ 7 A R$ 10. PROGRAMAÇÃO: ÀS 12H, GINCANAS E PALESTRA COM LAUDO FERREIRA JR.; ÀS 13H, QUIZ; ÀS 15H, DESFILE DE COSPLAY E WORKSHOP COM WILL CONRAD; ÀS 16H, PALESTRA COM MIKE DEODATO; ÀS 17H, CONCURSO DE COSPLAY.

 

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