Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

De dez carros, oito ignoram pedestres

Reportagem acompanhou travessia em diferentes pontos do centro. Cenário ainda é desanimador

Renato Machado, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2011 | 00h00

A campanha para aumentar o respeito aos pedestres em São Paulo completou ontem uma semana, mas o que se vê nos cruzamentos da cidade ainda é desanimador. Carros aceleram e buzinam para apressar as pessoas a pé, motoristas param em cima da faixa de segurança e até pedestres burlam as regras, correndo entre os veículos quando o semáforo está vermelho.

Na semana passada, a Prefeitura lançou na região central de São Paulo a primeiras das oito Zonas de Máxima Proteção ao Pedestre (ZMPPs). Nela, foram instaladas placas para conscientizar os motoristas e diversos cruzamentos ganharam reforço de agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), policiais militares e orientadores. O objetivo é criar um local onde o pedestre esteja protegido.

Anteontem, a reportagem do Estado acompanhou a travessia de dez pedestres em diferentes cruzamentos do centro para verificar se houve mudança no comportamento de pedestres e motoristas. Se fosse para fazer um placar, como em um jogo de futebol, o resultado seria de 8 a 2 para o desrespeito.

Vale ressaltar que as duas cenas de respeito aos pedestres ocorreram quando havia por perto marronzinhos ou outras ações da ZMPP. Nem todos os maus comportamentos por parte dos motoristas, no entanto, estavam fora da ação do programa. Em uma dessas cenas, uma atriz que faz mímicas para pedestres e motoristas fez um gesto reprovando um condutor. Recebeu um xingamento como resposta.

Na Rua Cincinato Braga, um carro chegou a encostar de leve na vendedora Maria Júlia Oliveira, de 27 anos. O veículo estava parado do lado esquerdo e queria um espaço para voltar para a pista quando o semáforo abrisse. Por isso, foi "embicando" em cima da faixa de pedestres. O caso ocorreu ao lado de um agente da São Paulo Transporte (SPTrans), que auxilia na campanha. "Nem quando está vermelho eles param para os pedestres. Tinha era de multar todo mundo", disse ele. A CET afirma que intensificará a aplicação de multas para os infratores após um período de adaptação.

O estudante Rafael de Oliveira Marques, de 23, foi um dos poucos entrevistados que conseguiram atravessar totalmente em segurança. Por volta das 15h, um agente da CET parou o fluxo de carros na Rua dos Ingleses para que ele passasse. A ação provocou uma lentidão momentânea na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, de onde vêm veículos que entram na Rua dos Ingleses. "Simplesmente não acreditei quando o marronzinho apitou para todos pararem e eu atravessar. Nem parece São Paulo", brincou.

Marronzinhos. Outro caso de respeito aconteceu na Rua Líbero Badaró, onde há faixa de pedestres sem semáforo. Um agente da CET esperou formar um grupo de seis pessoas para então parar o tráfego dos veículos e permitir a passagem dos pedestres. Entre eles estava o contador João Carlos Martins, de 32. "O problema é que eu passo aqui quando vou embora no fim do dia e, sem o marronzinho, ninguém para."

A CET foi questionada se, nesse caso, os agentes não estão apenas orientando o tráfego, e não conscientizando os motoristas, que passam a desrespeitar quem está a pé sem a presença dos marronzinhos.

A companhia respondeu que o programa de proteção ao pedestre requer mudança de comportamento de motoristas e pedestres em relação ao respeito à faixa de segurança, o que é um processo contínuo. "Por isso, é importante a presença efetiva de agentes de trânsito, policiais militares do Comando de Policiamento de Trânsito (CPTran), além dos orientadores de travessia e mímicos, para disseminar essa cultura." A CET também informou que considera positivo o balanço da primeira semana.

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