Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

De cortiço a prédio de orgulhosos moradores

Projeto de reforma do Edifício União, no centro de SP, ganhou prêmio de US$ 100 mil

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2011 | 00h00

Glória conheceu o poder. Foi dona de duas pensões no centro de São Paulo, viajou para o exterior, tinha um carrão. Até que se apaixonou por um dependente de drogas, que a levou à falência. Glória juntou US$ 12 mil e comprou um apartamento. Num cortiço. Era 1990. Hoje, Glória ainda não consegue erguer a cabeça para falar com orgulho do cortiço onde mora - embora nem cortiço ele seja mais. Mas admite que o Edifício União, no Bom Retiro, já não a envergonha mais.

O prédio teria 12 andares e começou a ser erguido na década de 1970. Foi abandonado pelos donos, que deixaram o esqueleto de oito pavimentos a cargo de um zelador. Ele passou a negociar os apartamentos inconclusos informalmente para quem queria viver no centro e não podia bancar um aluguel. O prédio chegou a ter 72 famílias encortiçadas, com barracos montados até no fosso do elevador.

Em 1992, um banco que tinha um terreno ao lado do União entrou com um processo contra a Prefeitura, para que dessem jeito naquele condomínio de excluídos. Alguns condôminos tentaram se adequar às leis. Mas foi só quando a Universidade de São Paulo (USP) se envolveu, em 2003, por meio de um projeto interdisciplinar liderado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e pela professora Maria Ruth Amaral de Sampaio, que o União se livrou da pecha de cortiço e se transformou.

Parte desse projeto foi gerida pela assistente social Patricia Mendes, quando ela fazia doutorado pela Faculdade de Saúde Pública da USP. O resultado de seu trabalho com as 42 famílias que vivem ali está no livro Gerenciamento do Risco em Habitações Precárias (Ed. AnnaBlume). "Em três anos, levantamos informações com os moradores e proporcionamos conhecimento e mudanças." Um ponto crítico do prédio era a precária rede elétrica. Os condôminos perceberam isso e, depois de esforços múltiplos e embates com o poder público, a rede foi substituída.

As transformações do prédio foram tantas que, em 2008, o projeto ganhou o Deutsche Bank Urban Age Award, prêmio no valor de US$ 100 mil. O ganho maior, porém, foi o da autoestima. Que o diga Francisco Bezerra, de 42 anos, há 20 no União, presidente da Associação de Moradores da Rua Sólon. Eleito em 2009, Chico, sem recorrer ao dinheiro do prêmio, saneou as contas do prédio - os moradores hoje não pagam aluguel, mas uma taxa de R$ 70 mensais. Chico conseguiu negociar a dívida do IPTU e trocar parte do encanamento.

O processo de usucapião dos moradores corre na Justiça desde 2005. Seria o passo final para essas pessoas se apropriarem, em todos os sentidos, de seus lares no União - que hoje já receberam ofertas de até R$ 45 mil. "Não queremos nada de graça. Mas queremos que o que a gente já fez aqui seja reconhecido."

Os US$ 100 mil do prêmio estão aplicados. "A reforma estrutural do prédio é a prioridade. Fizemos orçamentos, que ficaram fora da realidade", explica a professora Maria Ruth. Ela diz que, por conta dos recálculos, preferiu dar "um passo atrás" e buscar alternativas de uso dessa verba.

Num quarto de fundos, Bárbara, filha de Glória, de 17 anos, nascida ali na Rua Sólon, tem discurso oposto ao da mãe. "Amo viver aqui. E hoje trago meus amigos para me visitar orgulhosa." Uma nova geração no ex-cortiço que transformou sua história.

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