De briga de condomínio a crime organizado

Depois de mais de um ano de confusão, mobilização de moradores e 400 horas de escutas, grupo especial do Ministério Público abriu investigação

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2010 | 00h00

Interlagos Sul. Condomínio possui área três vezes maior do que o Parque do Ibirapuera

 

Morar em uma área três vezes maior do que a do Parque do Ibirapuera, com 5 milhões de metros quadrados, nascentes de rio, duas lagoas limpas e mais de 40 parques com trechos de mata atlântica preservados. E tudo isso a meia hora de São Paulo, em Embu-Guaçu.

Com esses atrativos, o Condomínio Interlagos Sul atraiu moradores de alta renda, em ruas sem iluminação, pensada para não espantar os macacos, suçuaranas, veados e tatus que vivem na área do loteamento.

Criado em 1989, o paraíso começou nos últimos dois anos, no entanto, a registrar uma série de eventos que davam sinais de que algo estava errado. Após mais de um ano de confusão, a mobilização de moradores e 400 horas de escutas, a briga de condomínio acabou indo parar no grupo especial do Ministério Público que tem a atribuição de combater o crime organizado (Gaeco).

A principal acusação é de que a associação de moradores, com a conivência de políticos e policiais, cortou ilegalmente 5% de mata nativa, o que corresponde a 250 mil m² ou 500 campos de futebol. "Como apareceram indícios de crime ambiental, de corrupção policial e de autoridades municipais, assumimos o caso. Agora vamos investigar se realmente há atuação de crime organizado ou se trata de uma briga de condomínio superdimensionada", afirma o promotor do Gaeco, Everton Luiz Zanella.

Motosserra. A história dos supostos crimes vieram à tona pelo depoimento de Leonardo Chiesi, que era conselheiro fiscal da associação e participou do suposto esquema de corte de árvores. Chiesi gravou mais de 400 horas de conversa com interlocutores, entre eles o ex-secretário municipal do Meio Ambiente, Oséias Florêncio da Silva.

Inicialmente, segundo Chiesi, a intenção era tirar proveito da receita elevada que o condomínio arrecadava dos moradores. Com 1.385 lotes e mensalidades de R$ 250, o faturamento anual do condomínio é de R$ 4 milhões. Inicialmente, foi montada uma empresa de segurança, em nome do diretor do fórum da cidade, Maurício Antonio de Oliveira, que cobraria mais caro e oferecia serviço de qualidade inferior. A empresa contratava e tinha apoio de policiais da cidade.

Chiesi ajudou a bancar os investimentos iniciais da empresa de segurança, mas não foi ressarcido. Para não ficar no prejuízo, em conversa com o presidente da associação, Flávio Nishikata, segundo conta, combinou de iniciar os cortes para depois negociar com madeireiras. Ganhou na associação o cadastro de moradores. Ligava para oferecer a poda, mas cortava muito mais do que o autorizado. Tinha licenças da Prefeitura, que não enviava o fiscal para checar os estragos. O plano era faturar R$ 300 mil com a venda de 4 mil m³ de madeira. Mas o esquema foi denunciado antes.

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