Tiago Queiroz|Estadão
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Dança, som e mortais. É o hip hop no metrô de São Paulo

Cerca de 20 jovens participam de grupo que, sem emprego formal, marca encontro nos vagões pelo WhatsApp

Tiago Queiroz|Estadão
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Tiago Queiroz e Paloma Cotes, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 05h00

SÃO PAULO - “Boa noite, pessoal, desculpe o susto, não foi nossa intenção. Somos um grupo de dança urbana que costumava se apresentar em festas e nas ruas e agora está mostrando sua arte no metrô. Aquele que não gostar, pode levantar a mão que passamos para o próximo vagão. Amém.”

É assim que Aline Tofalo, de 25 anos, Danilo Martins, de 29, Kennedy Ronaldo, de 25, e Robert Orlando, de 25, se apresentam quando as portas do metrô se fecham. Eles são 4 dos cerca de 20 jovens que participam do grupo de WhatsApp Hip Hop no Trem, que, sem emprego formal, passou a dançar dentro dos vagões em movimento.

Vindos de diferentes regiões de São Paulo, eles se conheceram em festas no centro da cidade e vias do entorno da Rua 24 de Maio e da Galeria Olido – ponto de encontro de gerações de rappers, MC’s e entusiastas da cultura de rua. Cansados de procurar por trabalho com carteira e avessos ao ambiente de escritório, os jovens marcam os encontros para as performances no metrô via WhatsApp – e ganham de R$ 50 a R$ 100 por dia cada um.

Com um pequeno som portátil dentro do vagão, Martins faz a apresentação do grupo assim que as portas se fecham. Seguem-se alguns segundos de silêncio. Ninguém levanta a mão se manifestando contra a apresentação e, então, o show começa. O aparelho de som é ligado e a apresentação começa estrategicamente no centro do vagão, onde os passos de street dance são mais facilmente realizados.

Orlando é o mais performático dos quatro integrantes da trupe. Ele dá saltos mortais, às vezes duplos, em um estilo meio “matrix” de dança, em que simula movimentos em câmera lenta, com o corpo todo curvado, beirando o chão do trem.

Única mulher do grupo, Aline conta que vários fatores influenciam as apresentações e o retorno financeiro. “A gente depende muito da época do mês, do horário, do dia da semana. Também depende de em quantas pessoas estamos, o volume do som, a interação com o público. Tem gente que não tem como contribuir financeiramente, mas dá uma palavra de incentivo que já muda o nosso dia.”

No dia em que o Estado acompanhou a apresentação, a maioria dos passageiros interagiu e filmou o grupo com o celular. Uma passageira pediu uma conta bancária para fazer um depósito, porque não tinha dinheiro vivo.  "No dia, eu não tinha o dinheiro para ajudar. Daí pedi para eles me passarem o contato, para que eu pudesse fazer um depósito", conta a advogada Nathalia Grizotto, de 30 anos. "A apresentação me emocionou muito, eles têm uma energia incrível. Eu dançava hip hop na adolescência e achei demais. Vou me casar no ano que vem e quero chamá-los para animar a minha festa."

Também sem trabalho fixo, Aline tem outras ocupações além da dança: trabalha como modelo e faz maquiagem para festas e videoclipes de música. Ela também tenta garantir seu lugar ao sol no mundo dos influencers com seu Instagram, que tem 18 mil seguidores.

A qualquer hora

Cerca de 20 jovens participam do grupo de WhatsApp Hip Hop no Trem. Tem quem dança de manhã e quem só pode à tarde ou à noite. Os integrantes se apresentam em todas as linhas, mas é na 2-Verde que o faturamento é maior. “Os vagões ficam cheios de gente saindo da faculdade à noite, e eles adoram ver. Na linha 2-Verde o pessoal apoia muito a cultura”, diz Martins.

Os jovens vaão todos os dias para o metrô, evitando os horários de maior e menor movimento. "Quando está muito cheio fica impossível dançar. E, quando está muito vazio, o que a gente ganha não compensa", conta Martins.

Todo o dinheiro que eles ganham é dividido de forma igual. Com o tempo, o grupo percebeu que só compensa dançar por dinheiro nos vagões quando vão em quatro. Segundo ele, "mais que isso ninguém ganha o suficiente para justificar a ida". E quanto é o suficiente? Eles dizem que em dias bons cada um chega a ganhar R$ 100, em um período de quatro horas. Cada show dura, em média, cinco minutos - ou quatro estações. 

Martins tentou trabalhar em um emprego com carteira assinada, com horário para entrar e sair. Gastava a sola do sapato nos corredores e banheiros de um shopping na zona norte. Tinha crachá, cargo de auxiliar de limpeza e não precisava correr de seguranças. Mas a cabeça e os pés estavam na dança.

Deixou o emprego e passou um tempo dançando em cruzamentos da cidade. No início do ano, percebeu que os vagões do Metrô poderiam ser palcos informais.

Kennedy estreou no metrô no dia em que o Estado acompanhou o grupo, mas sua história com a dança é antiga. Morador do Rio Pequeno, na zona oeste, ele começou a dançar em 2009, estimulado por um professor do colégios onde estudava. "Ele era muito ativo, dava aula de rima, hip hop e capoeira. Na época, me joguei na capoeira também", lembra. O rapaz já participou de campeonatos de dança e transitou entre os quatro elementos do hip hop: o MC, o DJ, o grafite  e o b-boy ou b-girl.

Relação com a dança

Os jovens que compõe o grupo têm uma relação única com a dança e dizem que o hip hop transformou suas vidas. Orlando acredita que quando dança é o único momento onde pode ser ele mesmo. É sucinto ao ser questionado se é mais difícil dar suas surpreendentes piruetas no ar com o trem em movimento: "Não, é a mesma coisa".  

Aline conheceu Martins - a quem sempre se refere como "parça" - na festa Discopédia, uma balada que agitava as noites na Rua Don José de Barros, próximo da esquina com a Avenida São João. De lá surgiu o convite para se apresentar no grupo. Na infância, ela conta que era uma criança ansiosa que tomava medicamentos para domar as angústias. Mas foi "salva" pela dança. O primeiro contato com a música foi na escola Celso Leite, na Bela Vista, bairro onde mora até hoje. Tinha 10 anos quando uma professora ofereceu algumas aulas extras para os estudantes. Daí em diante, não parou mais.

Já para Martins, a dança vêm de berço. Sua mãe, Luiza dos Santos Camargo, de 63 anos, conta que na adolescência costumava fugir de casa para ir a bailes de samba rock. Ela lembra com orgulho e uma ponta de saudosismo dos passos que já trocou com nomes como Nelson Triunfo, pioneiro da dança de rua no Brasil, e o ator Toni Tornado. Luiza nunca viu o filho dançar no metrô. "Ele dança bem, puxou do meu sangue. Eu acho ótimo ele dançar no metrô. Mas tem que tomar cuidado, porque hoje em dia qualquer pisão pode ser motivo de briga", diz.

Veto à dança

Procurado, o Metrô afirmou, em nota, “que permite e incentiva a apresentação de músicos e dançarinos em locais apropriados e de forma coordenada. No entanto, a prática de dança dentro dos trens é proibida”. A nota diz ainda “que os músicos não podem solicitar ou receber contribuições do público.”

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