Da Mooca para o cangaço

Já se passara uma semana desde que jovens oficiais do Exército e da Força Pública de São Paulo haviam se sublevado, tomado a capital e posto o governador do Estado em fuga. Aquela insurgência de 5 de julho de 1924 retomava o levante militar de 1922, no Rio de Janeiro, e se estenderia até a Revolução de 3 de outubro de 1930, que levaria Getúlio Vargas ao poder. Os revoltosos não conseguiram, porém, deslocar-se em tempo para o Rio e depor o presidente Artur Bernardes. Tampouco conseguiram as tropas legalistas penetrar na cidade. O cerco se arrastava.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2012 | 03h02

No Ministério da Guerra, o general Tertuliano Potiguara bravateava. Designado para vir a São Paulo no comando da chamada Brigada Potiguara, desembarcou com sua tropa na estação de Guaiaúna, depois Carlos de Campos, na Central do Brasil, onde se refugiara o governador do Estado, e pôs-se em marcha. Atravessou o Belenzinho e entrou pelo Alto da Mooca para encontrar as tropas legalistas que atacavam no Cambuci. A batalha da Mooca durou 15 dias. Dos altos da fábrica Crespi e do prédio da Antárctica, edifícios que ainda existem, os revoltosos atacavam os legalistas de Potiguara, cujos soldados avançavam de casa em casa, de esquina em esquina, no frio e sob a garoa. Eram muitos os mortos, militares e civis. Cemitérios foram improvisados em terrenos do bairro. Um deles, entre as Ruas da Mooca e Cuiabá. Cadáveres foram deixados no triângulo formado pelas Ruas da Mooca, Juvenal Parada e Oratório.

Na tragédia, havia também comédia. Na Rua Orville Derby, esquina com o Largo São Rafael, o vigia português de uma fábrica de cobertores, em mangas de camisa e de tamancos, bateu o portão na cara do oficial legalista que lhe fazia perguntas e ainda lhe disse uns palavrões. Alguns soldados lhe disseram, então, que seria fuzilado ou degolado. Retirou-se e voltou depois, vestindo terno novo, sapatos, lenço de seda no pescoço e boné. Explicou que se trajara para morrer direito e pediu para ser fuzilado e não degolado. Pouparam-no...

Combateu na Mooca, num dos regimentos da Brigada Potiguara, um certo José Leite de Santana, nascido em Buíque, Pernambuco, alistado em 1921. Depois da Revolução, desligou-se do Exército e retornou ao sertão. Entrou para o cangaço em 1926, com o nome de guerra de Jararaca. Era um negro bonito, muito moço. Participaria do ataque de Lampião a Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ferido, foi aprisionado quando tentava escapar. Alguns dias depois, a pretexto de que seria transferido da cadeia local para Natal, foi levado à noite para o cemitério, onde já estava aberta uma cova. Levou uma coronhada e foi degolado, sendo sepultado ainda vivo. A morte injusta e cruel acarretou-lhe fama de santidade. Seu túmulo tem sido lugar de romaria e devoção. Meio herói, meio bandido, meio santo.

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