Da Mooca para El-rei

Um certo Manoel João Branco, morador da vila de São Paulo, já velho, decidiu um dia ir a Lisboa beijar a mão de El-rei. Era ele homem abonado. Tinha fazenda no Juqueri e em Pinheiros e moinho de trigo no Ribeirão Anhangabaú. Criava gado no Tijucuçu e na Mooca. O Tijucuçu era bairro antigo, dos tempos de Santo André da Borda do Campo, atravessado pelo atual rio dos Meninos e pelo Tamanduateí. Eram terras alagadiças, de boas pastagens. Seriam drenadas no século 18 por meio de canais abertos pelos escravos do Mosteiro de São Bento, que desde 1631 ali se estabelecera com o que acabaria sendo a Fazenda de São Caetano do Tijucuçu. O Tijucuçu confinava com o ribeirão da Mooca e era Mooca o território que terminava na ponte da Tabatinguera, no que é hoje o que melancolicamente resta do abandonado e mutilado Parque Dom Pedro II. Do que era essa ponte no século 19 há belo quadro de Almeida Júnior na Pinacoteca do Estado, quando a Mooca chegava até ali. O latifúndio onde Manoel João criava suas vacas se situava parte em um e parte em outro bairro.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2011 | 00h00

Em 1624, era ele administrador das minas de São Paulo, que desde 1645 teria casa da moeda. Manoel João fez fortuna não com as vacas da Mooca e do Tijucuçu, mas com o ouro que há tempos já se extraía do Jaraguá e de outras minas. Andou doente em 1641 e fez testamento, mas sobreviveu. Foi visitar o rei não só pelo natural ímpeto de bajulação daqueles tempos, mas talvez para reafirmar a lealdade de família, parente que era de Amador Bueno da Ribeira, em 1641 aclamado rei de São Paulo. Coroa que recusou, pois nem existia, refugiando-se no Mosteiro de São Bento. Na porta do mosteiro atual, uma placa registra a ocorrência. Os paulistanos queriam fazê-lo rei no berro, o que prudentemente recusou. O populacho só se dispersou quando os monges saíram ao terreiro de cruz alçada pedindo que se dispersasse.

Morgadio. Manoel João, que voltaria para morrer em São Paulo, foi à Bahia antes de embarcar para o reino e ali mandou fazer umas bolas e outros objetos de ouro, incluindo um pequeno cacho de bananas, para com eles regalar o monarca. Em Lisboa andava numa rede paulista, colorida, carregada por escravos mulatos, que levou daqui, feita de algodão e lã. Foi recebido pelo rei, cuja mão beijou, que o honrou com a aceitação dos presentes que levara. É o que nos conta o historiador Pedro Taques, em livro de 1795, que considerava Manoel João caduco. Disse-lhe o rei que pedisse o que quisesse.

O caduco, para não desfeitear a majestade, pediu apenas 11 léguas de terra em quadra (66 km) num lugarzinho remoto chamado Guaratinguetá, para estabelecer um morgadio em seu filho Francisco João Leme, um feudo com pretensões de nobreza. Mas o filho se casou com quem ele não queria e o morgadio não saiu do chão nem do ventre da nora.

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