Da janela, o pianista vê passado, presente e futuro

É ali, em sua casa no Morumbi, que Marcelo Bratke repassa sua carreira internacional, os graves problemas de visão durante boa parte da vida e os atuais projetos sociais

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

A cadeira de couro preto virada para a ampla janela já denuncia a preferência de Marcelo Bratke por aquele canto da sala de estar. Que a vista dali é bonita, ninguém duvida. Mas, para o pianista de 50 anos, representa algo mais. É do alto do 11.º andar de um prédio no Morumbi, zona sul, que ele enxerga um certo misto de nostalgia e esperança - sentimentos que, mesmo depois de 20 anos de uma carreira internacional brilhante, ele ainda não cansou de ter.

Grande parte da nostalgia se deve à infância, à época em que vivia com os pais no mesmo terreno onde morava seu avô - o arquiteto Oswaldo Bratke, um dos principais nomes da arquitetura modernista do País. Dali daquela janela é possível ver um bom pedaço de onde ficava o antigo sítio, a casa dos seus pais e a famosa mansão de Oswaldo, que virou referência de seu estilo em livros nacionais e estrangeiros.

A janela também representa para Marcelo os 44 anos em que viveu num mundo onde tudo era muito mais escuro, turvo e borrado. Portador de duas doenças oculares congênitas, o pianista passou a maior parte da vida sem conseguir enxergar mais do que 8% no olho esquerdo e 2% no direito. Isso, conta ele, o afetou de diversas maneiras. De um lado, atrapalhou no rendimento escolar e na convivência com os colegas de sala quando era criança. "Nunca fui um bom aluno. Até hoje, só li dois livros na vida", diz.

Entretanto, ele atribui a seu problema de visão um aprimoramento maior nos outros sentidos, principalmente a audição. Foram seus ouvidos que o ajudaram a se destacar no piano desde criança, quando, aos 12 anos, foi imitar o pai - o também arquiteto Roberto Bratke - e tocou de primeira o Prelúdio Número Quatro de Chopin. "É uma obra de média dificuldade, mas quase impossível para uma criança de 12 anos que não sabia nada de piano", conta, ainda maravilhada, sua antiga professora, Zélia Deri, contratada logo após o talento ser descoberto.

Como não conseguia ler partituras, sua capacidade de memorização também foi aguçada pelo problema nos olhos. "Eu decorava as músicas e as repetia, com uma técnica que a Zélia criou só para me ensinar", diz Marcelo. E, assim, seu talento despontou. Aos 15 anos, já se apresentava com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Aos 22, foi para Nova York e estudou na Julliard School, uma das mais conceituadas academias do mundo. Aos 28, tocou no Festival de Salzburgo, terra natal de Mozart. Pouco depois, já era um dos pianistas de grande renome no Brasil e no exterior.

Futuro. Tudo isso foi conquistado sem que Marcelo conseguisse enxergar com clareza poucos palmos na sua frente. Foi assim até seis anos atrás, quando conheceu um médico americano que lhe deu confiança para fazer uma cirurgia, corrigindo seu "olho bom" e melhorando bastante o outro.

A diferença entre o antes e o depois é gritante. Para exemplificar, ele usa a mesma janela que dá vista para o sítio do avô - janela que ele diz ter projetado por conta própria quando o prédio ainda estava na planta, oito anos antes de ter feito a cirurgia. "Eu sabia que ali era uma área muito verde, mas só conseguia enxergar algumas manchas marrons e uns pequenos pontos pretos. Mas, agora, fico maravilhado cada vez que olho."

Com os olhos brilhando de empolgação, ele conta que a cirurgia também serviu para fazer uma mudança no rumo de sua carreira artística. "Ver o mundo desse jeito nítido me fez ver melhor também as diferenças sociais que existem, principalmente em São Paulo", disse. Assim, decidiu se dedicar mais a projetos sociais voltados a jovens de baixa renda.

Em 2006, ele criou um grupo de percussão com jovens do Jardim Miriam, região pobre na zona sul da cidade, que chegou até a tocar no Carnegie Hall, famosa casa de shows nova-iorquina. Agora, ele tem dois principais projetos. O primeiro é o Cinemúsica, uma apresentação de piano com projeções de imagens feitas por sua mulher - a artista plástica Mariannita Luzzati -, que vai ser levado a cerca de 60 penitenciárias paulistas.

O outro é a Camerata Brasil, um grupo formado por jovens da periferia de Vitória (ES) que o acompanha no Brasil, Estados Unidos e Europa tocando Villa-Lobos. De tão empolgado com as críticas positivas que o projeto vem recebendo, Marcelo parece até um pianista iniciante, que não se cansa de se maravilhar com as boas mudanças que a música pode fazer.

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