Reprodução/Câmera de Segurança
Imagens de câmeras de segurança mostram Carina, companheira de Ana Flávia, chegando no condomínio. Ela também teve a prisão temporária decretada Reprodução/Câmera de Segurança

Da amizade às acusações: a história dos presos pela morte da família carbonizada em São Bernardo

O crime interrompeu a história de ascensão financeira da família e chocou, sobretudo, além da violência, pela suspeita de participação da filha mais velha do casal, Anaflávia Gonçalves, de 24 anos, e da mulher dela, Carina Ramos, de 26, que estão presas

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Com a mochila nas costas, uma estudante de 13 anos esperava sozinha o ônibus passar pela Rua Valter José Alves, uma lateral do Fórum de Praia Grande, na Baixada Santista. Em plena tarde de sexta-feira, nem o movimento de carros e de pedestres em volta do Tribunal inibiu dois jovens, não muito mais velhos, de 18 e 19 anos, de se aproximarem e anunciar o roubo.

Diziam estar armados e queriam a mochila. A garota não ofereceu resistência, mas fez um pedido aos ladrões: “Deixa só eu tirar os documentos”. Foi nesse momento que uma testemunha estranhou aquela movimentação e avisou um guarda-civil que estava de serviço perto dali. Os agentes avistaram os suspeitos correndo, conseguiram prendê-los em flagrante e recuperaram a bolsa. A história da arma, descobriram ao revistá-los, era blefe.

O assalto frustrado aconteceu no dia 27 de novembro de 2015 e motivou o primeiro processo criminal contra Juliano de Oliveira Ramos Júnior, hoje com 22 anos. Preso considerado de “bom comportamento”, ele logo progrediu para o regime aberto e teve a pena extinta, após cumprimento, em agosto de 2019. A liberdade, no entanto, durou pouco. 

Desde o início deste mês, Juliano voltou à cadeia - desta vez, investigado por crime mais grave. Ele é um dos suspeitos de fazer parte da quadrilha que roubou, torturou e matou o casal de empresários Romuyuki e Flaviana Gonçalves, de 43 e 40 anos, e o filho caçula, Juan Victor, de 15, cujos corpos foram encontrados carbonizados em uma estrada de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, no fim de janeiro.

O crime interrompeu a história de ascensão financeira da família e chocou, sobretudo, além da violência, pela suspeita de participação da filha mais velha do casal, Anaflávia Gonçalves, de 24 anos, e da mulher dela, Carina Ramos, de 26, que também estão presas. Os outros detidos são Jonathan Fagundes Ramos, de 23 anos, que é irmão de Juliano, e o vizinho deles Guilherme Ramos da Silva, de 19. A Polícia Civil deve indiciar os cinco por homicídio qualificado.

Juliano era o único do grupo com antecedente criminal. Durante a investigação, ele foi responsável por delatar Guilherme e apontar o envolvimento direto de Anaflávia e Carina nos crimes. Em interrogatório, o suspeito ainda tentou livrar o irmão e indicou um homem inocente no lugar.

O depoimento provocou a reação dos demais envolvidos e deu início a trocas mútuas de acusações no inquérito. Para se defender, os outros investigados alegam ter concordado “apenas” em assaltar a família Gonçalves, mas negam participação nas mortes. Para eles, os assassinatos só deveriam entrar na conta de Juliano e Jonathan.

Antes da investigação, no entanto, o convívio entre os cinco era bem diferente. Todos são vizinhos no Jardim Santo André, favela composta por vielas, ruas íngremes e residências, na maioria das vezes, sem revestimento. Segundo informação de policiais, o local seria controlado pelo tráfico de drogas.

Lá, eles costumavam frequentar um a casa do outro e mantinham relação de amizade. A ponto de, mesmo sem grande experiência no crime, tramarem juntos o plano para roubar R$ 85 mil que supostamente os Gonçalves guardavam no cofre de casa, em um condomínio fechado de Santo André, também no ABC.

Os amigos

Em 2018, Anaflávia interrompeu um casamento para iniciar o namoro com Carina, através de quem conheceu os demais envolvidos no crime. As duas passaram a morar juntas nas proximidades da Rua Toledanas, no Jardim Santo André, de onde ela saía todos os dias, de manhã cedinho, para trabalhar em uma loja de perfumes que Romuyuki e Flaviana haviam aberto em um shopping de São Bernardo do Campo.

As vendas no quiosque iam bem e o resultado se refletia em comissões, cada vez mais gordas, para Anaflávia. Também era comum a filha presenciar Flaviana fazer a contabilidade da loja ou pagamentos a outros funcionários ao fim do expediente.

Segundo parentes, a primeira vez que viram Carina foi no hospital em 2018, quando as duas iam visitar a bisavó de Anaflávia, então internada na UTI. “Anaflávia apresentou como uma amiga. Carina me tratou bem, me deu até R$ 50 na época: ‘Fique aí, dona Vera, para tomar um café’”, conta a avó materna Vera Lúcia Conceição, de 57 anos. 

Com o passar do tempo, notaram que a mulher seria responsável por fazer Anaflávia ir se afastando do convívio familiar. Estranharam, ainda, outra questão: ninguém sabia informar muito bem qual profissão Carina exercia. Para uns, ela chegou a mentir que era delegada. Para outros, disse ser enfermeira.

Sobre a vida da investigada, a polícia sabe que Carina fez curso técnico de necropsia. Também sabe que a mãe dela, Josiane Ramos, tinha passagem por furtos e foi encontrada morta no seu apartamento em janeiro de 2017. Mais tarde, um médico atestaria causa natural por câncer de estômago. 

Nos últimos tempos, Carina tocava uma lanchonete no bairro. “Olha a novidade que está chegando para vocês. Mundo das Delícias. Temos: bolo no pote de diversos sabores, tortas, lanches natural (sic), mousse, delícia de abacaxi, bolo da vovó”, escreveu Anaflávia no Facebook, fazendo propaganda do negócio em janeiro de 2019. A  postagem foi compartilhada por Jonathan.

De uma família de, ao todo, dez irmãos, Jonathan e Juliano são primos de Carina e estavam desempregados. Já a mãe deles mora em Praia Grande, onde Jonathan, o último a ser preso, ficou escondido antes de se entregar à polícia na semana passada.

Na rede social, os dois irmãos tinham costume de postar selfies ostentando óculos da Oakley e correntes no pescoço. No ano passado, Jonathan publicou a foto exibindo uma bicicleta e um carro popular antigo. Na legenda, escreveu:“Agradeço a Deus pelo que conquistei até agr… mas peço a Ele pra me da sabedoria pra conquista MT mais (sic)”. O perfil de Juliano curtiu.

Morando um perto do outro, Anaflávia via os primos de Carina com frequência. Segundo advogados que atuam no caso, a ideia do assalto teria surgido após Juliano notar que as duas estavam conseguindo comprar eletrodomésticos e utensílios para equipar o apartamento e a lanchonete. Isso teria despertado interesse sobre a condição de vida da família Gonçalves.

Segundo a defesa de Anaflávia e Carina, o casal teria negado as primeiras propostas do roubo, mas mudou de ideia por “questões financeiras”, não especificadas. A ideia era pegar o dinheiro e repartir igualmente entre todos os integrantes da quadrilha. 

Para o assalto, os quatro resolveram chamar também Guilherme Silva, um jovem que trabalhava em um lava-rápido da comunidade. “Ele vem de uma família muito humilde. O pai e a mãe são nordestinos e, muito trabalhadores, vieram para São Paulo. Ele é filho único. Teve uma criação simples, mas nunca faltou nada”, diz o advogado criminalista Leonardo José Gomes, que o representa. 

Segundo o defensor, Carina era a pessoa com quem Guilherme teria mais proximidade do grupo. Na visão de José Gomes, ele teria aceitado participar porque “cresceu os olhos” com a possibilidade de dinheiro fácil. “Foi um desvio de conduta: quis pegar um atalho”, afirma. “Mas qualquer pessoa, olhando de fora, percebe que foi tudo mal planejado. O roubo, que deu errado, foi mal planejado. Até mesmo os homicídios e a forma de se livrar dos corpos foram mal planejados.”

As desavenças

A Polícia Civil considerava Anaflávia e Carina suspeitas desde o primeiro dia da investigação. Chamadas a depor, elas inventaram que a família estaria devendo dinheiro a um agiota e que o homem seria o possível mandante do crime, mas acabaram caindo em contradição e tiveram a prisão temporária decretada pela Justiça.

Em novo interrogatório, Carina mudou a versão. À polícia, disse que estava na casa dos sogros quando três indivíduos armados entraram e renderam a família. Também afirmou que um dos criminosos seria o seu primo Juliano, mais conhecido por Buiú ou Beiço.

Embora não tenha acreditado plenamente no depoimento, o delegado solicitou à Justiça a prisão de Juliano. No pedido, registrou: “Nota-se inconsistência no relato da investigada Carina, em especial, em relação a sua não participação no roubo, pois não esclareceu a contento a extrema coincidência de um dos assaltantes ser justamente seu primo”.

Ao ser preso, Juliano prestou o depoimento que revirou a investigação. Na delegacia, disse que todos tinham bolado o plano juntos e que Anaflávia e Carina participaram ativamente de toda a ação.

O grupo entrou no condomínio escondido no carro de Anaflávia, um Fiat Palio, depois de seguir o Opala em que estavam Romuyuki e Juan Victor. Já Carina passou a pé pela portaria social, conforme mostram as câmeras de segurança. Eram 20h09, horário que já não havia mais porteiro no local.

Uma vez na casa, simularam ter rendido Anaflávia e Carina. Depois dominaram o pai e o filho e passaram a exigir a senha do cofre. Como nenhum dos dois sabia, os bandidos teriam torturado as vítimas a pancadas e as asfixiado com um saco plástico, segundo Juliano. Ao chegar ao local, a mãe Flaviana se desesperou e abriu o cofre. A suposta quantia de R$ 85 mil não existia.

Pela versão de Juliano, Anaflávia e Carina deram aval para as mortes. A filha teria concordado em executar os pais por causa de uma suposta herança de seguro de vida.

Por causa das novas acusações, o casal foi prestar novo depoimento e, desta vez, fez uma confissão parcial. As duas admitiram o assalto, mas alegaram que a ação saiu do controle. Segundo elas, a condição era que o roubo não envolvesse violência física ou xingamentos.

De acordo com o relato de Anaflávia e Carina, elas teriam declinado do assalto após perceberem que Romuyuki e Juan Victor estavam sendo agredidos, e foram ameaçadas por Juliano. Em meio à guerra de narrativas, essa também é a versão adotada pela defesa do quinto preso. “O Guilherme jura de pés juntos que a ideia era só o roubo e que não participou das mortes”, diz José Gomes.

Contra o depoimento de Juliano, pesa o fato de ele ter apontado como partícipe – em vez do irmão Jonathan – um inocente. Os policiais viajaram mais de 470 quilômetros para prender Michael Robert dos Santos, de 26 anos, em Avanhandava, no interior de São Paulo. Ele chegou a passar três dias detido até que os investigadores concluíram que pegaram a pessoa errada.

“Eu não tive envolvimento nenhum. Nada com nada. Confundiram tudo. Eles (policiais) fizeram o trabalho deles, mas confiaram no que estava preso. Ele (Juliano) já não tinha nada a perder, não custava nada acabar com a vida de outra pessoa”, disse Santos, ao Estado, no dia em que foi solto. Segundo conta, esteve na mesma cela de Juliano e chegou a perguntar por que ele o incriminou. “Ele me pediu desculpa.”

Para voltar para casa, Santos recebeu ajuda de custo dos policiais. Os agentes fizeram a vaquinha do próprio bolso.  

Unidas

Com prisão temporária em vigor, Juliano e Jonathan estão em uma unidade de São Caetano do Sul, no ABC. Já Guilherme está detido no CDP de Pinheiros, na capital, porque também responde por flagrante de receptação, convertido em prisão preventiva. Na casa dele, a polícia encontrou objetos, como o videogame e a TV, que pertenciam à família Gonçalves. O advogado contesta esse crime: “Como ele pode ter receptado algo que ele mesmo roubou?”

Por sua vez, Anaflávia e Carina eram, na semana passada, as únicas presas na carceragem do 7.º Distrito Policial de São Bernardo do Campo. Em geral, o local serve para abrigar, provisoriamente, presas foragidas que foram capturadas e já chegou a receber mais de cem pessoas em anos anteriores, segundo funcionários.

Há quatro celas no local, mas uma está desativada por falta de energia elétrica. Quando o casal chegou, havia outras duas mulheres na carceragem - uma presa por uso de moeda falsa; outra, por estelionato. Elas, no entanto, já foram removidas do local.

Na ocasião, Anaflávia e Carina foram postas em celas separadas e eram obrigadas a tomar banho de sol em horários diferentes. Tudo para evitar que combinassem o depoimento para o inquérito. O delegado também mandou tirar as TVs de lá, a fim de impedir que o casal ficasse atualizado sobre o andamento do caso. Segundo relatam, as duas se comunicavam aos gritos e faziam juras de amor.

Agora, como os investigadores já consideram os interrogatórios suficientes, Anaflávia e Carina receberam autorização para ficar juntas na mesma cela. “Elas são muito educadas e corteses. Não há nenhum episódio que as desabone aqui dentro”, afirma um carcereiro. As duas passam os dias juntas e não teriam feito nenhum pedido à administração - como, por exemplo, ter acesso a jornais e revistas. “Elas estão fechadas no mundinho delas.”

O que mais chama atenção no 7.º DP, entretanto, é que até agora só os advogados de defesa foram vê-las na cadeia. “Nenhum familiar veio falar com elas, isso é bastante incomum. Geralmente sempre tem uma tia boazinha que vem visitar, mas desta vez nem isso.” 

 

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Família carbonizada em São Bernardo vivia ascensão econômica

A filha mais velha do casal, Anaflávia Gonçalves, de 24 anos, e a mulher dela, Carina Ramos, de 26, confessaram ter tramado roubar R$ 85 mil para depois repartir valores com os comparsas

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2020 | 06h00

Às 2h32 de terça-feira, 28 de janeiro, o sinal da radiopatrulha interrompeu o plantão até então sossegado do 6.º Batalhão da Polícia Militar. Um incêndio aparentemente em um carro de luxo acabara de ser controlado pelo Corpo de Bombeiros em um recôndito da Estrada do Montanhão, periferia de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. O chamado para viaturas era urgente. Pelo que diziam, havia cadáveres escondidos no porta-malas.

A ocorrência deixou os policiais em ronda intrigados. A delegacia daquela região registrou menos de um homicídio por mês no ano passado: não deveria ser um caso comum. Pelas coordenadas do local, viram que correspondia à uma área de terra batida e cascalho, quase sem luminosidade, e toda ladeada por matagais.

Quando a viatura chegou, os agentes se depararam com a imagem: os corpos, carbonizados, estavam colados uns aos outros. Foi preciso analisar com cautela para confirmar que eram três mortos. “Dois aparentavam ser do sexo masculino, não sendo possível precisar”, registrou-se no boletim de ocorrência. Do outro cadáver nem sequer dava para arriscar o sexo.

Por causa do estrago provocado pelas chamas, a perícia não conseguiu coletar impressões digitais na lataria destruída. Só um pedacinho escapou do fogo, justamente onde fica a placa traseira. A sequência DWQ-7944 era a única pista em mãos. 

Após consultas no sistema, descobriram se tratar de um Jeep Compass, ano 2019, de cor azul. O proprietário era o empresário Romuyuki Veras Gonçalves, de 43 anos, que vivia no condomínio Morada Verde, em Santo André, a 6,5 quilômetros dali. Como de praxe, policiais se deslocaram até a casa e logo perceberam que não havia mais ninguém para responder ao som da campainha – a não ser as cadelinhas July e Belinha.

Levou menos de 24 horas para a polícia confirmar Romuyuki entre os corpos no porta-malas. Também identificaram a mulher dele, Flaviana Gonçalves, de 40 anos, e o filho caçula Juan Victor, de 15. Chamou a atenção da polícia que, apesar de a casa estar trancada e sem sinais de arrombamento, os cômodos se encontravam revirados e faltava uma TV, videogame, uma caixinha de moedas antigas, joias e cerca de R$ 8 mil.

A tragédia da família causou ainda mais comoção quando, no dia seguinte, os investigadores prenderam os primeiros envolvidos no crime: a filha mais velha do casal, Anaflávia Gonçalves, de 24 anos, e a mulher dela, Carina Ramos, de 26. Em depoimento logo após o caso, elas alegaram inocência e apontaram um agiota, para quem supostamente a família estaria devendo, como possível mandante.

Duas semanas depois, Anaflávia e Carina mudaram a versão e confessaram ter tramado roubar R$ 85 mil para depois repartir o valor com comparsas – mas sob condição de não haver violência física ou xingamentos durante o assalto. “A coisa saiu do controle”, diz a advogada de defesa Isabel Cristina Rotta. Até agora, elas negam participação nos assassinatos.

Caso de família.

Em dezembro, a avó Vera Lúcia Conceição, de 57 anos, estava feliz. Os exames mais recentes não indicavam nenhum avanço do câncer de mama, contra o qual faz tratamento há dez anos. Às vésperas da festa de Natal, aguardava ansiosa para receber a filha Flaviana e a família na sua casa em Extrema, cidade da região sul de Minas.

Tomou um susto quando viu o carrão que parou na frente do portão. “Cadê o pretinho?”, Vera perguntou, se referindo ao veículo antigo da família. Descrita como extrovertida, Flaviana apontou o Jeep Compass, modelo que não sai a menos de R$ 99 mil da concessionária, e respondeu: “Mãe, a gente queria fazer uma surpresa!”. No momento, a avó também não deixaria de notar que a neta Anaflávia não participava da viagem de fim de ano.

O carro zero quilômetro era um sinal da prosperidade da família de raízes humildes. O casal se conheceu ainda na infância, quando os dois eram vizinhos em Cidade Tiradentes, bairro pobre da zona leste da capital. Com cerca de 10 anos, Romuyuki já ajudava o pai a bater de porta em porta, tentando vender produtos de limpeza que eles mesmos fabricavam. “Foi o primeiro namorado da minha filha”, conta Vera.

O primeiro emprego formal de Romuyuki foi como office-boy. Depois, formou-se em Administração e trabalhou por 23 anos em uma multinacional. Entrou auxiliar administrativo e saiu representante internacional. Em 2016, lançou o livro de autoajuda Adaptações às Mudanças em Tempos Acelerados. Por sua vez, Flaviana era formada em Enfermagem. 

Há menos de dois anos, o casal resolveu investir em um negócio próprio e abriu, em um shopping de São Bernardo, a primeira loja de perfumes. Instalado na entrada da praça de alimentação, o quiosque era alvo de reclamações de lanchonetes vizinhas (segundo funcionários, o cheiro dos produtos se misturava ao das comidas), mas todos por lá afirmam que as vendas, em si, iam muito bem.

Em questão de meses, inauguraram uma filial em Mauá e preparavam a terceira em Extrema. Sem ter concluído o curso de Engenharia, a filha mais velha passou a trabalhar, de carteira registrada, nas lojas dos pais. Ao fim do dia, via a mãe contabilizar o dinheiro dos negócios.

Já Juan Victor era estudante e tinha o sonho de virar astronauta – a diferença para a irmã mais velha é de uma década. Curiosamente, quando Flaviana estava na gestação do caçula, Vera também esperava uma menina temporã. “Fiquei grávida junto com a minha filha”, comenta a avó.

Juntos.

 Parentes dizem que os quatro eram muito unidos e costumavam compartilhar das mesmas programações. A família gostava de ir à praia, mesmo na época em que precisavam acampar em barraca. Apesar da distância de idades, Anaflávia e Juan Victor também eram próximos e curtiam até jogar videogame juntos.

“Era uma família bem tradicional: o pai sério e a mãe brincalhona”, afirma o primo Diogo Reis. “Tudo que eles conseguiram foi com muito trabalho.”

O comportamento de Anaflávia teria mudado após ela conhecer Carina, por meio de uma rede social, em meados de 2018, segundo relatam os parentes. Na época, a filha mais velha era casada com outra mulher.

O primeiro casamento aconteceu em 2017 e Romuyuki e Flaviana foram padrinhos da cerimônia. Artesã, Vera lembra que Anaflávia decidiu casar “de uma hora para outra”, por isso a avó teve de correr para arranjar o vestido e confeccionar o buquê. A família sempre cita o episódio como evidência de que o casal lidava bem com o fato de Anaflávia ser homossexual. Também “de uma hora para outra”, ela teria rompido a relação e pedido para a ex sair de casa.

Descrita como ciumenta e possessiva, Carina já havia terminado outros dois relacionamentos estáveis antes de se envolver com Anaflávia. No primeiro casamento, com um homem, teve duas filhas biológicas. No outro, com uma mulher, adotou outra menina.

Ela e Anaflávia passaram a morar juntas no Jardim Santo André, uma comunidade perto da casa da família, e se casaram em 9 de janeiro, pouco antes do crime. Parentes relatam não terem sido chamados e dizem que só ficaram sabendo da união mais tarde. 

“Com o passar do tempo, Anaflávia passou a se distanciar cada vez mais da família”, diz Reis. De acordo com parentes, Carina exerceria uma espécie de “domínio” sobre a mulher e acabou sendo proibida de frequentar a casa após conflitos com Romuyuki. O episódio central aconteceu após o pai presentear Anaflávia com um Fiat Palio. Em seguida, a filha teria sido obrigada por Carina a passar o carro para o nome dela.

A advogada Isabel Cristina Rotta afirma que as duas protagonizavam “brigas normais de casal” e que não haveria grandes conflitos entre o casal e a família de Anaflávia – exceto “um pouco de aversão” de Romuyuki que tomava partido da filha durante essas desavenças. “Ela frequentava a casa, saía com eles. Estavam sempre perto”, diz.

O crime.

Ainda de acordo com a advogada, a ideia do suposto assalto teria surgido porque todos os envolvidos estariam passando por “dificuldades financeiras”. O plano começou a ser traçado ainda no ano passado.

Para a Polícia Civil, outras três pessoas – incluindo dois primos de Carina – participaram dos homicídios. Além do casal, também estão presos Juliano de Oliveira Ramos Júnior (um dos primos) e Guilherme Ramos da Silva, um amigo delas. O outro parente, Jonathan Fagundes Ramos, está foragido.

Naquela noite, a quadrilha usou o Fiat Palio para entrar no condomínio. Uma vez na casa, rendeu Romuyuki e Juan Victor – inicialmente, ela e Carina ainda simulavam serem vítimas do assalto. Flaviana só chegaria mais tarde e também acabou rendida.

Armados com pistola glock, os criminosos teriam amarrado pai e filho com fitas adesivas. Depois passaram a bater neles e a sufocá-los com um saco plástico, enquanto exigiam a senha do cofre. Com medo, o jovem chegou a urinar nas calças.

“Naquela euforia toda de não saber a senha, eles passaram a agredir os dois e a coisa saiu do controle”, diz Isabel. “Anaflávia começou a chorar e aí ameaçaram matar as duas, se não colaborassem. Eles tomaram conta da situação.”

Após descobrir que não havia a quantia de R$ 85 mil, os comparsas teriam decidido executar a família, segundo afirma a defesa do casal. Elas não saberiam dizer como os assassinatos aconteceram, diz Isabel.

“Anaflávia está abaladíssima. Ela falou que, se soubesse que alguma coisa fosse dar errado, não teria feito. Nunca pensou que iria perder a família por causa disso”, diz a advogada. Já Carina estaria arrependida e com “sentimento de culpa”. “Elas não imaginaram esse final.”

Já a versão de Juliano é diferente. À polícia, ele diz que as duas participaram ativamente da ação e deram aval para as mortes. Anaflávia teria concordado por causa de uma suposta herança de um seguro de vida feito pelos pais.

Agora, os investigadores trabalham para confirmar o papel específico de cada um. Com o processo sob segredo de Justiça, um policial comentou em anonimato: “Muitos ficam dizendo que Carina que é a cabeça. Pode até ser. Mas, honestamente, eu não sei ainda. O que é certo é que eu não chamaria nenhum dos cinco para tomar um cafezinho na minha casa”.

No dia seguinte ao crime, os muros do condomínio amanheceram pichados com a palavra “Justiça”. “Queremos respostas”, havia em outra inscrição.

Também foi nessa ocasião que a avó Vera chegou a entrar, de fato, no imóvel. Lá, percebeu os objetos espalhados pelo chão, o cofre escancarado e marcas de sangue no quarto de Juan Victor. Desde então retorna – dia sim, dia não – para alimentar as cachorrinhas, mas não passa da área externa.

“Sempre que eu via um caso na TV, pedia a Deus para consolar a família. Agora me vejo nessa situação... Se eu chorar é porque a dor é grande demais, mas estou forte. Tenho Deus. Não quero a pena de ninguém, só peço que rezem”, diz a avó.

Para ela, o crime tem motivo. “A ganância subiu à cabeça, infelizmente”, afirma Vera. “Perdoar (a neta), já perdoei, mas eu quero Justiça. Eu vou até o final, tenho de saber toda a verdade. Preciso disso."

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