DA 3ª MAIOR FAVELA DA CIDADE PARA UM BAIRRO DE VERDADE

Gleba São Francisco, na zona leste, é foco de projeto que envolve ambiente, habitação e transporte; 'Tudo é pensado em conjunto', diz arquiteta

/ R. B. e R. B., O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h03

Quando mudou para São Paulo, no meio da década de 1970, José Paulo Rodrigues da Silva não tinha a mínima ideia de onde morar. Acabou erguendo um barraco em uma encosta em Guaianases, no extremo leste da cidade. A situação era tão precária que, com o risco de deslizamento, sua casa acabou sendo removida pela Prefeitura. Seu destino final foi a Gleba São Francisco, um antigo conglomerado de conjuntos habitacionais na região de Sapopemba, que, 40 anos depois do início da sua ocupação, tornou-se a terceira maior favela de São Paulo, com 7,9 mil domicílios e cerca de 29 mil habitantes, segundo a Secretaria Municipal de Habitação.

"Colocaram a gente em uma casinha de um cômodo só, sem acabamento nenhum, sem transporte, sem nada", lembra Silva. Hoje com 54 anos, ele é líder comunitário do bairro que está vivendo uma das maiores transformações desde a sua fundação. A Gleba São Francisco será a primeira favela de São Paulo a passar por um projeto urbanístico completo - o bairro ganhará ruas, rede de saneamento, calçadas alargadas, mobiliário urbano, quadras de esporte, três parques, novas linhas de ônibus e obras de paisagismo nas encostas. "Queremos transformar essa área, que estava praticamente abandonada pelo poder público, em um bairro de fato", afirma a arquiteta Anna Dietzsch, do escritório DBB Aedas, responsável pelo projeto.

Dar importância ao entorno e à qualidade de vida dos moradores é outra mudança pela qual passam as políticas de habitação social em São Paulo, além dos novos prédios menos estigmatizados. Ao contrário do que ocorreu entre as décadas de 1970 e 1990, quando o importante era construir o maior número possível de unidades habitacionais em algum lugar pouco urbanizado na periferia da cidade, cada vez mais os investimentos em paisagismo e lazer fazem parte dos projetos. Em algumas situações, eles são até mais importantes do que as próprias unidades habitacionais, como é o caso da Gleba São Francisco.

As obras na região deverão custar, no total, R$ 260 milhões, e serão divididas em dois lotes. O primeiro já foi concluído - foram feitas a rede de saneamento básico, canalização de córregos, contenção de encostas, urbanização de vias e 584 unidades habitacionais. Na segunda fase, que está em obras e deverá ser concluída até o ano que vem, outros 844 apartamentos estão contemplados, além da construção dos parques e de novas obras de urbanização, saneamento e drenagem.

"A diferença desse projeto para os mais famosos de Paraisópolis e Heliópolis é que tudo está sendo feito pensado em conjunto. Não são intervenções pontuais", afirma Anna.

Para ela, o maior desafio das obras de urbanização foi reunir em um mesmo projeto diversas secretarias municipais. A pasta de Habitação é responsável por contratar as obras, mas também estão envolvidas a Secretaria do Verde e Meio Ambiente (para a construção dos parques), a de Transportes (novas linhas de ônibus serão criadas para ligar o bairro ao monotrilho da Linha 2-Verde, que será estendido até a região) e até a de Trabalho (para organizar a criação de cursos, oficinas e empregos na região). "A organização do poder público em secretarias separadas não facilita esse tipo de intervenção conjunta. Ao contrário, só atrapalha. Mas a urbanização não pode ser vista só como embelezamento de bairro. Deve ser um projeto conjunto", defende a arquiteta.

Transformação. Os novos apartamentos que serão construídos no bairro também levam em conta a mudança no paradigma das habitações sociais. A Gleba São Francisco agrega praticamente todos os modelos de conjuntos já tentados pela Prefeitura e pelo Estado - há prédios e casas erguidos nos "mutirões" da ex-prefeita Luiza Erundina (1989-1992), Cingapuras da época de Paulo Maluf (1993-1997) e casas de mais de três andares erguidos sobre as pequenas casas de 25 m² construídas pelo governo estadual na década de 1980. Agora, a Prefeitura planeja tanto integrar os vários conjuntos e ocupações separadas quanto oferecer novas unidades habitacionais seguindo os novos paradigmas para a construção dos prédios.

Atualmente, a mudança mais visível é a transformação das antigas ruas de terra, antigamente cheias de lixo e esgoto, em calçadões com postes, banquinhos e lixeiras, onde a preferência é dos pedestres e ciclistas. "O pessoal está gostando. Pelo que fizeram nas primeiras ruas que já estão em obras, está ficando bom demais", elogia José Paulo, o líder comunitário, que torce para que a boa repercussão anime a Prefeitura a oferecer transformações parecidas ao 1,2 milhão de pessoas que vivem nas outras 1.019 favelas paulistanas.

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