D. Pedro II e a enchente de 1862

Diário do imperador registra que a água subiu três palmos nas ruas de Petrópolis; ''pouco se fez do ano passado para cá'', criticou

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2011 | 00h00

Foram pelo menos 40 os verões em que o imperador d. Pedro II mudou temporariamente a sede do governo do Rio para Petrópolis. O clima ameno e a tranquilidade da cidade da região serrana - chamada Petrópolis justamente para homenagear os Pedros I e II - davam condições para que ali funcionasse o Palácio de Verão, onde o imperador chegava a passar cinco meses a cada temporada.

Nem sempre, entretanto, a hospedagem era isenta de dissabores. Prova de que a natureza tem sua própria e inabalável lógica, regular e constante, a chuvarada já era um grande problema para os petropolitanos do século 19.

Os diários de d. Pedro II, guardados pelo Museu Imperial, em Petrópolis, atestam essas efemérides climáticas. Eis o trecho - retirado do volume 9 do Arquivo Histórico do museu - anotado de próprio punho imperial em 6 de janeiro de 1862: "Ontem de noite houve grande enchente. Subiu três palmos acima da parte da Rua do Imperador do lado da Renânia; acordou o Câmara, e um homem caiu no canal devendo a vida a saber nadar e aos socorros que lhe prestaram. Conversei hoje com o engenheiro do distrito; pouco se fez do ano passado para cá. Os estragos que fez a enchente levaram dois meses a reparar segundo me disse o engenheiro. Falei-lhe sobre a vantagem de introduzir na colônia a cultura da amoreira e criação do bicho-da-seda."

História. Não é só por fazer de Petrópolis sua casa de veraneio que o imperador nutria tais preocupações. Petrópolis era para ele "sua fazenda". O encanto que a região despertava pela realeza brasileira vinha de seu pai. Em 1822, quando voltava ao Rio depois de uma expedição a Minas Gerais, d. Pedro I parou no local - na Fazenda Correia - para passar a noite. Decidiu que compraria terras ali para a construção de um palácio de verão.

Não houve meios de convencer o proprietário a se desfazer da fazenda. D. Pedro acabou comprando, anos depois, glebas vizinhas - a Fazenda do Córrego Seco, rebatizada Imperial Fazenda da Concórdia. É essa propriedade que, hoje, com algumas mudanças, corresponde à área de Petrópolis.

O sonhado palácio de verão, entretanto, só ficaria pronto mais tarde, em 1843, já no governo de d. Pedro II. A partir de então, nos verões a pequena cidade no interior fluminense se transformava em capital do Império, recebendo toda a corte.

Poder. Seja por importância política, seja por simbolismo, seja pelo clima agradável, Petrópolis seguiu hospedando, ao menos alguns dias por ano, os governantes brasileiros após a Proclamação da República. Os registros vão de Prudente de Morais (1894-1898) e Costa e Silva (1967-1969). Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954) era o mais assíduo. Durante o Estado Novo, chegava a passar ali temporadas de três meses.

TRECHO

"Ontem de noite houve grande enchente. Subiu três palmos acima da parte da Rua do Imperador do lado da Renânia; acordou o Câmara, ...

... e um homem caiu no canal devendo a vida a saber nadar e aos socorros que lhe prestaram."

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