CV aproveitou tumulto para ampliar ataques

Confusão que começou após invasão de imóveis e interceptação de 'bonde' aumentou com tiroteios ordenados pela facção

RIO , O Estado de S.Paulo

22 Março 2014 | 02h03

Pelo menos seis pessoas foram feridas, cinco delas baleadas, durante a onda de ataques de traficantes a quatro Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) na zona norte do Rio, na noite de quinta-feira. Entre os baleados está o capitão Gabriel Toledo, comandante da UPP Manguinhos.

Tudo começou por volta das 17h30, quando PMs da UPP Manguinhos entraram em choque com um grupo de pessoas que voltou a ocupar imóveis na Avenida Leopoldo Bulhões - que já haviam sido esvaziados para a continuidade das obras de reurbanização da comunidade. Depois de retirados, os manifestantes seguiram para a vizinha Favela do Mandela, onde atacaram PMs com pedras. Aproveitando-se da confusão, traficantes arremessaram coquetéis molotov em cinco contêineres e duas viaturas da UPP (uma picape Nissan e um Logan), que pegaram fogo e ficaram completamente destruídos. O soldado Ramos foi ferido por uma pedrada na cabeça. Levado ao Hospital Getúlio Vargas, foi medicado e liberado.

Ao mesmo tempo, em Manguinhos, PMs se depararam com um "bonde" de traficantes do Comando Vermelho que havia saído da Vila Kennedy (em Bangu, zona oeste), recentemente ocupada para futura instalação da 38.ª UPP. Os bandidos estavam em três vans. Eles se encontrariam com comparsas de Manguinhos (ligados à mesma facção) para invadirem o Morro dos Macacos, em Vila Isabel, controlado pela facção rival ADA. O "bonde" atirou contra os PMs, que revidaram. Houve intensa troca de tiros. Foi nesse confronto que o comandante da UPP foi baleado na virilha. Ele foi levado ao Hospital Federal de Bonsucesso, e depois transferido para o Hospital Central da PM. O oficial foi operado e passa bem.

Para se aproveitar da confusão em Manguinhos e na vizinha Mandela, traficantes do CV decidiram atacar a tiros outras duas UPPs em favelas controladas pela facção: Camarista Méier (no Complexo do Lins) e Nova Brasília (Complexo do Alemão). Houve confronto com policiais, mas sem registro de feridos. Ninguém foi preso. Na Camarista Méier, um ônibus foi incendiado.

Em meio à onda de violência contra as UPPs, o governador do Rio, Sérgio Cabral reuniu-se com a cúpula da segurança do Estado no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC).

Pela manhã, o comandante-geral das UPPs, coronel Frederico Caldas, disse que os ataques a quatro UPPs da zona norte do Rio feitos anteontem à noite foram orquestrados. Ele ressaltou que as demais UPPs, espalhadas pela zona sul, zona oeste e Baixada Fluminense (uma, em Duque de Caxias), não sofreram nada.

Dia seguinte. Ontem, em Manguinhos, o clima na favela ainda era de tensão e insegurança. Assustados, muitos comerciantes preferiram não abrir as portas e moradores temiam novos ataques na noite de ontem.

Fortemente armados, policiais lotados na UPP acompanharam a substituição dos cinco contêineres queimados. Técnicos da concessionária de energia Light trabalharam desde a madrugada de quinta-feira para restabelecer a energia no local.

Pela manhã, garis da Companhia Municipal de Limpeza Urbana retiraram os destroços dos contêineres e varreram as ruas. Muitos moradores não conseguiram ir para o trabalho porque os ônibus não passavam na Avenida Leopoldo Bulhões, que corta o complexo. Já o Laboratório de Direitos Humanos de Manguinhos culpou o Estado pela invasão, que deu início ao tumulto. "A ocupação era previsível, por causa do enorme déficit habitacional na região. Muitas famílias moram em situação precária, por causa das obras do PAC de Manguinhos, ainda inacabadas." /MARCELO GOMES e THAISE CONSTANCIO

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