Curso de locução para melhorar os avisos do Metrô

Articulação de palavras e língua portuguesa estão no currículo de treinamento inédito dos 888 operadores de trens da empresa

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

O nome da estação é Chácara Klabin. Bem espaçado: Chá-ca-ra Kla-bin. E é necessário pensar antes de falar. Se for rápido demais, se a ênfase não estiver correta, se as sílabas não forem bem articuladas, a pronúncia pode sair de outro jeito. E qualquer um dos 40 mil passageiros diários que desembarcam nessa estação da Linha 2-Verde do Metrô perceberia caso saísse, sem querer, um atropelado - e "extremamente raro", segundo a companhia - "Chácra Krabin".

Para evitar problemas na emissão dos avisos sonoros - nomes de estações, orientações e advertências aos passageiros -, o Metrô de São Paulo incluiu no treinamento dos 888 operadores de trens um curso específico de locução, pela primeira vez desde sua fundação, em 1974. O treinamento, obrigatório, começou há um mês - após realização de pesquisa com passageiros, que pediram "mais clareza" nas mensagens - e deve durar até julho do ano que vem.

O curso dura um dia e é dividido em dois módulos: língua portuguesa de manhã ("vamos entender os fonemas de cada estação", explicou a professora) e fonoaudiologia à tarde ("perto de: "caixa de graxa grossa de graça" vai ficar bem fácil dizer "Anhangabaú""). Em oito horas, os funcionários aprendem lições de respiração, postura, articulação das palavras, pausas enfáticas e suavização de sotaques, entre outros itens da apostila Técnicas de Emissão de PAs (Public Auditions, na sigla em inglês que batiza os avisos) elaborada pelo Senai-SP, parceiro do Metrô.

A maioria dos alunos - operadores que fazem locução há décadas intuitivamente - jamais ouviu a própria voz numa gravação. "Dá susto quando ouvem, mas depois detectam os problemas e se expressam melhor. O resultado da experiência vem sendo bastante positivo", disse o gerente operacional do Metrô, Wilmar Fratini. Tão positivo, adianta ele, que será incluído no treinamento oficial da companhia, a partir do ano que vem.

Sorrindo. "No calor, o ventilador faz barulho, atrapalha a locução. Não é só falha humana", disse um operador, que assistia à aula na tarde de ontem, com outros 15 funcionários da companhia.

"Em horários de pico, não é fácil ficar de olho nas portas, na hora certa de partir, e ter de falar ao mesmo tempo. Às vezes, tomar distância do microfone fica mesmo em segundo plano", disse outro, logo após um fonoaudiológico "bra-bre-bri", para aquecimento vocal. "Calma turma", respondeu a professora, Michelle Romão: "Problemas acontecem, todos sabem. Tem de respirar direito, endireitar a postura, e emitir os PAs sorrindo. O passageiro vai perceber."

"Vaidosa" com sua voz, a operadora de trens Elizabete de Oliveira, de 54 anos, funcionária do Metrô desde 1976, conta que já foi reconhecida pelos anúncios das estações. "Gosto da minha voz. Já recebi ligação de amigos, dizendo que viajava sempre no "meu trem"", disse Elizabete, uma das três primeiras operadoras (mulheres) da companhia. "O passageiro percebe que você está feliz, sorrindo ao "falar" com ele. As aulas de locução vão melhorar esse "relacionamento"."

Outro condutor com duas décadas de subterrâneos, Vicente Pimenta, de 54 anos, diz que "até demorou" para profissionalizar a locução. "Não sabia que carregava tanto no "R". Quer dizer que meu sotaque sempre foi assim, demorou 30 anos para perceber como falo?", brincou o condutor, paulista de São José do Rio Pardo, após ouvir sua gravação. "Vou tomar mais cuidado no "não segure as portas"."

Só dicas. Antes de a companhia iniciar a aula específica de locução, o treinamento era feito por meio de "dicas" de "instrutores experientes", antigos condutores - nunca houve fonoaudiólogo, nem professor de português. "O serviço foi avaliado como "fundamental", por isso criamos o curso", diz o gerente Fratini. "Além disso, com digitalização nos novos trens (em que basta apertar um botão para emitir avisos), é preciso manter o nível."

Até julho de 2011, 1,2 mil funcionários - além de operadores de trem, funcionários de centros de controle e de manobras - devem participar das aulas.

TRAVA-LÍNGUAS *

Estação Anhangabaú

Terror dos condutores, que esquecem o "ga" ("Anhanhabaú")

Estação Praça da Árvore

Se transforma em "Árve"

Estação Belém

O nome é curto: vira tentação, portanto, diminui-lo ainda mais, para "Blém"

Santa Cruz e Luz

São falados "Cruiz" e "Luiz"

Estação Armênia

Na pressa, diz-se "Amênia".

"Transferência gratuita"

Alguns falam "gratruita"

"A transferência entre linhas não é garantida..."

O "trans" e o "entre" seguidos pode confundir. Há pedidos para que esse aviso mude.

Áudio. nome

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