Arquivo/AE
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Curiosidades do teatro-símbolo de SP

Há quase um século, a cidade ganhava sua principal casa de espetáculos; amanhã, após reforma de três anos, portas serão reabertas

Daniel Trielli, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2011 | 00h00

São Paulo tinha pouco mais de 240 mil habitantes quando decidiu-se que seus teatros já não comportavam a demanda por cultura da cidade. Depois de várias tentativas e tropeços, há pouco menos de 100 anos era inaugurado o luxuoso Teatro Municipal, desenhado pelo arquiteto mais famoso da época - Ramos de Azevedo - e inspirado na Ópera de Paris.

Ainda não era a época dos arranha-céus (os edifícios Sampaio Moreira e o Martinelli, na Rua Libero Badaró, seriam inaugurados na década seguinte). Por isso, nada atrapalhava a vista do Municipal, que tinha como vizinhos jardins, casas baixas no Vale do Anhangabaú sem urbanização e um concorrente, o Teatro São José, que era pequeno demais, onde hoje fica o Shopping Light.

Mesmo com a demanda e o esforço do poder público, demorou para que o projeto desse certo. Durante as tentativas de se levantar dinheiro para a obra, vários locais foram cogitados para o prédio, como a Praça João Mendes (atrás da Catedral da Sé), a Praça da República e o Largo São Francisco.

Assim como o nascimento do teatro, a mais recente reforma do prédio também foi acidentada, com problemas de licitações e adiamentos de prazos de entrega. Mas o trabalho era necessário. A poluição da metrópole já havia até corroído parte das esculturas no topo do edifício.

Hoje, R$ 28 milhões e três anos depois, a plateia será reaberta para uma apresentação especial, só para convidados. No domingo, o Municipal abre as portas para o público, que poderá ver o concerto da Orquestra Sinfônica Municipal e do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, com ingressos esgotados.

1 - Adiamentos. A comissão organizadora da inauguração cogitou abrir o teatro em julho, mas a data era a mais imprópria para a cidade do café: era mês da colheita e todos os ricos fazendeiros paulistanos estavam no interior. Ficou acertado então que o dia da estreia seria 11 de setembro de 1911, uma segunda-feira. Mas os cenários, que vinham da Argentina, atrasaram e as cortinas só se abriram no dia seguinte. Lá fora, 20 mil pessoas se aglomeravam e davam origem ao primeiro congestionamento da cidade.

2 - Confusão. A ópera escolhida para a inauguração foi Hamlet, versão do francês Ambroise Thomas. Mas o vereador Alcântara Machado, nacionalista, protestou. A solução de última hora foi tocar, antes da ópera, as notas de O Guarani, de Carlos Gomes. O espetáculo só começou às 22h. Três horas depois, teve de ser interrompido por causa do adiantado da hora e a história ficou sem o epílogo.

3 - Burocracia. A construção do Municipal começou em 1903, mas a Prefeitura tentava criar um teatro na cidade havia 8 anos. Desde 1895, várias leis que davam isenção de impostos para quem construísse o espaço foram sancionadas. Propostas foram feitas, mas nada deu certo até o governo estadual comprar o terreno - por 692 contos de réis - e doar para a Prefeitura.

4 - Libretos. Centenas de panfletos e programas dos primeiros espetáculos do Teatro Municipal quase foram perdidos para sempre. Em 1973, quando faliu a editora responsável pelos folhetos, a Publicidade Ribeiro, o acervo ficou abandonado. Um dos funcionários da editora, Luciano Cerri, resgatou os papéis e os guardou até morrer, em 1998. Agora, a coleção deve se tornar um livro, que será lançado em setembro pela produtora DMP.

5 - Entorno. Em fevereiro de 1920, o Estado publicou uma reclamação sobre os "grossos cabos" pendurados ao lado do Teatro Municipal, parte do começo da rede elétrica paulistana. "Confesso que não sei explicar a facilidade com que a Prefeitura permite que a Light (...) estrague tão lamentavelmente os melhores aspectos da cidade." Coincidentemente, poucos anos depois, em 1929, a Light inaugurou sua sede ao lado do Municipal, no prédio que hoje é um shopping.

6 - Fonte. Hoje a Praça Ramos de Azevedo, entre o Teatro Municipal e o Vale do Anhangabaú, é enfeitada por estátuas do italiano Luiz Brizzolara em homenagem a Carlos Gomes, compositor de O Guarani. Mas o conjunto, com a imagem do artista no topo e cavalos na gruta da fonte, só foi inaugurado em 1922, 11 anos depois da abertura do municipal. O adorno original era uma imagem de Netuno, com cavalos menores e nadadeiras no lugar de cascos.

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