Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Curiosidades do Belém

Na Vila Maria Zélia, a mais antiga e bem montada cidadela operária do Brasil, era proibido namorar e brincar nas ruas

O Estado de S. Paulo

10 Novembro 2015 | 16h16

Muitas fábricas  do Belém tinham vilas para seus operários. Coladas às plantas industriais, elas eram bastante convenientes para os empregados em termos de infraestrutura e proximidade do trabalho, mas sobretudo permitiam que os patrões os vigiassem de perto. O mais antigo e ambicioso desses empreendimentos foi a Vila Maria Zélia, inaugurada por Jorge Street em 1917, com casas que iam dos 74 aos 110 metros quadrados de área construída. Era considerada um modelo, com instalações incomparáveis.

1. Vila Maria Zélia

Maior realização do industrial Jorge Street, a Vila Maria Zélia foi inaugurada em 1917, tendo como modelo cidadezinhas europeias. O objetivo era se distanciar dos cortiços, oferecendo condições melhores para os funcionários (em troca, Street esperava obter, claro, fidelidade e disciplina). Todos os moradores trabalhavam na fábrica (homens, mulheres e crianças)

No quesito disciplina, aliás, algumas das muitas regras: era proibido fazer barulho depois das nove da noite, namorar nas áreas comuns, brincar na rua e consumir bebidas alcoólicas. Há testemunhos de que as pessoas eram vigiadas mesmo dentro de suas casas. 

A "cidadela" tinha 138 residências espalhadas em seis ruas principais e quatro transversais, uma escola de meninas e outra de meninos, farmácia, creche, jardim de infância, salão de baile, campo de futebol e de bocha. O tamanho das casas variava de 74 a 110 metros quadrados. Separada da rua por muro e portão, a vila tinha na entrada um jardim com coreto e igreja.

2. Quem foi Jorge Street

Nascido no Rio de Janeiro em 1863, é um dos mais importantes personagens da história industrial do Brasil. Herdeiro de seu pai na sacaria de juta São João, em 1904 comprou a fábrica de tecidos de juta de Álvares Penteado, transferindo a unidade carioca para São Paulo em 1907. Comprou o terreno que ia da Celso Garcia ao rio Tietê em 1910 para construir a fábrica e a Vila Maria Zélia. Seis anos depois da inauguração, porém, elas foram vendidas. Street terminou falido.

3. A Avenida Celso Garcia 

Ela já foi a mais elegante do bairro, porque no período de forte industrialização os proprietários das fábricas erguiam seus palacetes ali. Aos poucos, porém, eles foram se mudando. A via ainda é uma referência, mas não tem mais aquele glamour. E os antigos casarões ou desaparecerem ou foram abandonados.

4. Nova "encarnação" de alguns prédios do bairro

O Sesc Belenzinho funciona no mesmo terreno outrora ocupado por uma das mais importantes fábricas do Belém, a Moinho Santista, que chegou a empregar 4 000 pessoas e funcionava ininterruptamente.

O Parque Estadual do Belém foi inaugurado em 2012 em uma área de 210 mil metros quadrados que pertencia à antiga Febem de São Paulo. No edifício onde funcionava a detenção, foi construída a Fábrica de Cultura do bairro, um espaço dedicado a artes e educação.

A própria Vila Maria Zélia, na Rua dos Prazeres, hoje é um espaço cultural. Conserva alguns de seus prédios originais, como a escola das meninas e o antigo boticário, onde está instalado o Armazém da Memória (exposição de objetos antigos que pertenceram aos trabalhadores da Companhia Nacional de Tecidos de Juta). O projeto Armazém 19, da companhia de teatro Grupo XIX, usa os espaços da vila para seus espetáculos e oficinas.

5. O primeiro cinema do bairro

O Cinema Belém, na Celso Garcia (antes de fechar, nos anos 50, ele mudaria de nome ao menos duas vezes, chamou-se Melita e Santa Terezinha), foi inaugurado em 1910 ou 1911. Um enorme acontecimento. Era o primeiro da região (não só do bairro). Houve também um cineteatro São José, no Largo São José de Belém. Os filmes, mudos, eram em geral europeus, sobretudo italianos, e chegavam a ter a trilha sonora executada por uma orquestra ao vivo. O galpão de zinco também dava lugar a outros espetáculos artísticos. No tempo das fábricas e dos operários ir ao cinema era o programa de lazer mais querido dos moradores do Belém e do Brás. As salas chegavam a ter 4 000 lugares. Elas não existem mais.

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