Cupons

No último sábado, enquanto esperava meu amigo num bar, pude dedicar-me a uma de minhas atividades favoritas: ouvir a conversa da mesa ao lado. Mal havia terminado de ajeitar a cadeira, num estratégico ângulo de 45 graus, percebi que estava com sorte: tratava-se de uma discussão de relação, das boas.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2010 | 00h00

Ela o acusava, basicamente, de não ser um parceiro. Nunca ia almoçar na mãe dela, aos domingos, porque tinha jogo do Corinthians. Jantar fora durante a semana era uma raridade, porque ele sempre estava cansado do trabalho. E sábado à noite, quando ela queria ir ao cinema, ele já havia marcado de tomar cerveja com o Marcão, o Buzunga e o Rodrigueira.

Ele, curiosamente, tinha a visão inversa dos fatos. Dizia que havia meses não via um jogo do Timão, porque estava sempre na casa da mãe dela. Chegava cansado ao trabalho porque saíam para jantar fora, quase toda noite. E o Marcão, o Buzunga e o Rodrigueira reclamavam que, depois do início daquele namoro, ele havia sumido dos bares.

Fiquei no meu canto, a cutucar a bolacha de chope com um palitinho, pensando como era possível duas visões tão desencontradas do mesmo namoro. Alguém tinha que estar errado. Mas como descobrir? Não há um banco de dados da relação, com gráficos sobre o comportamento de cada um aos sábados, porcentagens dos domingos de idas aos jogos e de visitas à casa da sogra.

É curioso. Embora durante o século 20 a estatística tenha se infiltrado em quase todas as esferas da atividade humana, as relações amorosas ficaram de fora. Cientistas sociais aplicam o conhecimento extraído de Durkheim, Lévi-Strauss e Bourdieu para descobrir o que as donas de casa das classes A e B acharam do novo tom perolado de um condicionador de cabelo; matemáticos e semiólogos determinam quantas vezes a palavra "mudança" deve ser dita no discurso de um político para que ele aparente modernidade sem passar a imagem de um radical, mas as batalhas do amor, meus caros, o pão de nossa alma, finalidade última da existência, continuam sendo travadas no manguezal das subjetividades.

Enquanto dividia a bolacha de chope em rodelas fininhas, tive uma iluminação. Desenvolvi então um sistema, modéstia à parte, revolucionário. Será ele a minha contribuição à humanidade, razão pela qual serei lembrado, nos séculos vindouros, como Brás Cubas ainda o é, 130 depois de ter criado seus emplastos. Trata-se dos Cupons de Relacionamento.

Funciona assim: no começo do namoro, cada um recebe 30 cupons. Estabelecem-se os valores: uma ida ao jogo do Corinthians em dia de almoço na sogra, por exemplo, custaria a ele cinco cupons. Já se ela quiser convencê-lo a assistir Cerejeiras em Flor na noite em que o Rodrigueira está fazendo um churrasco de aniversário, terá que passar-lhe sete unidades. (Se fosse um filme do Tarantino e não tivesse churrasco, ninguém gastaria cupom nenhum, uma vez que seria agradável a ambas as partes). Ela quer viajar com as amigas, sem o namorado? Tudo bem, 15 cupons na mão dele e não se fala mais nisso. Ele pode gastar esses 15 cupons de uma vez, jogando um pôquer até de manhã, em plena segunda-feira, ou guardar para uma emergência: digamos que na final do Campeonato Paulista ela queira ver uma peça do Zé Celso, de seis horas?

É claro que na economia dos cupons, como na economia real, a pessoa pode ir parar no vermelho. Uma vez ou outra, tudo bem, mas se um dos lados estiver sempre no miserê, enquanto o outro forra as paredes com cupons, não tem amor que segure. Até neste momento meu sistema trará avanços. Quando um dos dois perceber que o balanço é insustentável, não precisará se desdobrar com aquelas velhas desculpas, como "não é você, sou eu", ou "sei lá, tô confuso". Basta mostrar o saldo: "olha só, eu tô com 57, você com três. Desde o Natal você não chega a dez!" e, então, decretar a falência do namoro. (Caso o pior aconteça, vale lembrar que dívidas de uma relação não podem jamais ser cobradas em outra. O mesmo vale para créditos).

Diga-me, caro leitor, é ou não é um sistema sublime, destinado a aliviar nossa melancólica humanidade? Google, Grow, Sociedade Brasileira de Psicanálise, outras empresas ou instituições interessadas, podem mandar suas propostas ao e-mail nesta página.

PS. O casal da mesa ao lado, no bar, acabou brigando. Ela foi embora, deixando-o com os olhos baixos e aquele queixo tremeliquento de quem está prestes a chorar. Estivesse a relação pautada por meus cupons, quem sabe não teria sobrevivido?

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