Cultura da periferia desfila na Bienal e a moda, nos CEUs

Cavalera fez ontem homenagem ao soul e Ronaldo Fraga mostra hoje o futebol de várzea; desfile será reapresentado nos centros educacionais

VALÉRIA FRANÇA , FLÁVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

19 Março 2013 | 02h03

Pela primeira vez, os alunos dos 48 Centros Educacionais Unificados de São Paulo (CEUs) vão assistir aos desfiles de moda que começaram ontem, no prédio da Bienal, no Parque do Ibirapuera. Trata-se de uma parceria entre a organização da São Paulo Fashion Week (SPFW) e a Prefeitura. "O projeto deve se repetir nas outras edições", promete Cesar Callegari, secretário municipal da Educação. "É uma forma de sensibilizar os alunos a se interessarem por novas carreiras."

Durante esta semana, em todas as unidades será exibido o documentário SPFW 15 anos. Haverá ainda workshops, exposições de fotos e até desfiles. Conhecido pelos vestidos de festas, Samuel Sirnansck dá palestra, hoje, no CEU Tiquatira, zona leste. Na quinta-feira, na unidade do Butantã, será a vez de Ronaldo Fraga mostrar a mesma coleção que exibe na Bienal, hoje às 17 horas.

"Estou muito ansioso para ver a reação dos alunos. Acho que é uma experiência de mão dupla", diz Fraga, que fez uma coleção inspirada no futebol de várzea. Antes da apresentação, o estilista vai explicar aos alunos onde e como nasceu sua coleção. "Minha pesquisa começa quando o futebol deixa de ser um esporte de elite. Uma época em que os negros precisavam passar pó de arroz no rosto para jogar. O esporte é a primeira vitória da mestiçagem nacional."

Passarela. Fraga encarou o desafio de partir de roupas masculinas de futebol para desenvolver peças femininas. "No início os uniformes eram de linho e os distintivos bordados à mão. Depois vieram as listras, mas eram para confundir o adversário", revela.

Soul. Nesta temporada, Alberto Hiar, dono da Cavalera, deixou de lado o universo do rock, que sempre esteve presente nos seus desfiles. Ontem, o desfile dançante da marca de quase 1 hora fechou o primeiro dia da semana de moda, fazendo uma homenagem à música negra americana. E, para isso, trouxe ao palco o dançarino Nelson do Triunfo, que mora na Penha, zona leste, onde ensina a garotada a dançar. Ele se apresentou com um time de 40 dançarinos.

"A coleção foi inspirada no funk americano, o soul. Nelson é um ídolo na periferia, apesar de ser anônimo para as pessoas que vão assistir ao desfile", diz Alberto Hiar, que ainda trouxe de volta o estilista Marcelo Sommer.

O ator e cantor Tony Tornado, que viveu em Nova York, no auge do soul, também participou do show. O cenário do desfile teve por base o programa da TV americana Soul Train, que ficou no ar de 1971 a 2006.

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