'Cubanos têm muito a ensinar', diz ministro

Diante das críticas à "importação" de cubanos para reforçar o programa Mais Médicos, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que profissionais da ilha de Fidel Castro podem ensinar aos colegas brasileiros "o compromisso com os mais pobres e com os que mais precisam". Em entrevista ao Estado, minimizou a exigência de Cuba de abocanhar mais da metade dos rendimentos dos médicos e sentenciou: o salário não é o mais importante.

Entrevista com

LÍGIA FORMENTI, VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h03

"Esse contato com médicos que vêm para cá, cuja felicidade também é construída por outras motivações, vai ser muito positivo para o Sistema Único de Saúde", previu Padilha.

Pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, devoto de São Jorge e corintiano roxo, o ministro da Saúde tem em seu gabinete imagens do "santo guerreiro" e revive agora os tempos de articulador político do Planalto, cargo que exerceu na gestão Lula. Toma café da manhã com deputados, almoça com prefeitos e janta com senadores, mas diz que a caça aos votos é para aprovar o Mais Médicos até novembro.

Nesse cenário, Padilha não deixou passar em branco as críticas feitas ao programa pelo governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à reeleição. "É uma profunda insensibilidade com o sofrimento do povo", rebateu ele.

O governador Alckmin afirma que não faltam médicos, mas financiamento. Como o senhor responde? É uma profunda insensibilidade com o sofrimento do povo não reconhecer que faltam médicos no Brasil. É só ver as dificuldades da população na periferia, nos municípios do interior.

Virão mais médicos cubanos além dos 4 mil já acertados? Estamos analisando o ritmo de inscrições individuais de médicos brasileiros e de outros países. Temos a expectativa de que vai aumentar. Vamos usar todas as estratégias para garantir o atendimento a milhões de pessoas que não têm médico.

Incluindo outro acordo? Vamos avaliar a execução do acordo com Cuba. Pretendemos buscar outras parcerias, como ONGs que têm interesse em assumir determinadas regiões. No Haiti, trabalhamos com a Pastoral da Criança e grupos expedicionários de médicos.

O acordo com Cuba é comparado à escravidão... Estamos fazendo uma parceria com o braço da ONU para saúde nas Américas (a Opas) com termos semelhantes aos de outros 58 países. Nunca houve uma comparação como essa.

E o envio de parte do salário para o governo cubano? Gostar de médico cubano e reconhecer a competência não significa concordar com as características do regime político de Cuba. O que me move como ministro é trazer médico para a população. A chegada desses profissionais vai demandar novas questões, provocará uma mudança no SUS. Um médico afirmou que os cubanos viriam para cá felizes. Muito bom. Eu quero médicos bons e felizes para atender o povo.

Mas esse médico cubano naturalizado brasileiro (Carlos Rafael, que prestou depoimento na Câmara, na quarta-feira) também disse que o governo sujaria as mãos de sangue... Acho que essa afirmação é de quem está mais preocupado em debater o regime político de Cuba do que em ver como suprir o atendimento médico a milhões de brasileiros. Temos acordos com Cuba na área há anos. A excelência na atenção básica de Cuba nos ajudou a reduzir a mortalidade infantil, ampliar a vacinação, combater epidemias. Hoje temos parcerias que envolvem descobertas tecnológicas e a oportunidade de trazer médicos com experiência no atendimento em área de extrema vulnerabilidade social.

É possível ser feliz mandando mais da metade do salário para o governo cubano? Não podemos comparar nossa realidade com outras. Na Europa, quase metade do salário do médico fica como imposto e ele é feliz por isso, porque tem saúde e educação como retorno. Vários espanhóis e portugueses vêm para cá porque estão desempregados. O Mais Médicos nos ajudará a ver que também os médicos brasileiros não são só motivados pelo que ganham. Esse contato com médicos que vêm para cá, cuja felicidade é construída por outras motivações, será muito positivo para o SUS.

Por que o Brasil mudou de posição em relação à concessão de asilo para os cubanos? Não há mudança de posição. Se o médico estrangeiro for desligado do programa por qualquer motivo, como não cumprimento da carga horária, ou concluir os três anos de trabalho e quiser ficar no Brasil para casar, por exemplo, isso será avaliado.

O senhor não teme que haja um pedido de asilo em massa e que isso possa prejudicar as relações com Cuba? Não trabalho com hipóteses. Minha prioridade é trazer médico.

O que o senhor achou da reação da classe médica? Alguns grupos tiveram uma reação que reforça a visão preconceituosa, de xenofobia, de truculência. Não só com o médico que vem de fora, mas em relação ao médico negro. Ouvimos "voltem para senzala". Precisamos de uma escola que integre os médicos aos outros profissionais, como enfermeiros e psicólogos. Ele não pode ser visto como se fosse de um estamento diferente no hospital.

Seus adversários dizem que o Mais Médicos foi montado às pressas, para criar uma marca no governo Dilma e inflar sua candidatura ao governo de São Paulo. O programa foi pedido por todos os prefeitos, de todos os partidos. Prefeitos do PSDB e do DEM pediram esse programa para criar uma marca para a presidente Dilma? Não acredito nisso. Isso é um problema real dos municípios.

Há muita resistência no Congresso. Como o senhor fará para neutralizar essas dificuldades num momento em que a articulação política do governo Dilma enfrenta uma crise? Estou fazendo meu trabalho permanente de formiguinha no Congresso. Já fui ministro das Relações Institucionais (governo Lula) e vou buscar os votos para que a gente possa aprovar essa medida provisória. Converso com as bancadas para tirar dúvidas e ouvir sugestões.

Será possível transformar a residência em pré-requisito para a contratação de médicos pelo SUS e até mesmo por universidades públicas? O centro da proposta é criar uma situação na qual o formado, que está na residência, passe um período maior no SUS, na atenção básica e na urgência e emergência. Isso provocará uma profunda mudança na formação do profissional. O debate no Congresso é como transformar esse ponto em uma regra jurídica, pois nem todo médico é obrigado a fazer residência.

O que o médico cubano tem a ensinar ao médico brasileiro? O conhecimento da atenção básica, a cultura da prevenção e o compromisso com os mais pobres. Essa troca será positiva não só para o médico do Brasil como para os outros profissionais. Não tenho dúvida de que a presença desses médicos, de segunda a sexta, nas Unidades Básicas de Saúde, ajudará a moralizar o cumprimento da carga horária no SUS.

Quando o senhor vai deixar o Ministério para começar a campanha ao governo de SP? Não discutimos isso. Nossa atenção está voltada para o Mais Médicos. Esse é um programa que gera preocupação e ganhou um carinho muito grande da presidente Dilma. Quase diariamente ela checa a atuação do programa e nos cobra.

Com que partidos o senhor pretende fechar alianças para sustentar sua candidatura? O único voto que estou caçando agora é para aprovar o Mais Médicos no Congresso (risos).

A queda de popularidade do prefeito Fernando Haddad não prejudica sua candidatura, que também traz o mote do "novo"? O prefeito Fernando Haddad está fazendo um grande trabalho por São Paulo. Na condição de ex-ministro da Educação, ele vem promovendo uma reforma profunda no sistema de avaliação dos alunos da escola pública. Estou muito confiante na gestão do Haddad.

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