Cruzamento

Faz anos que ela vende chicletes, num cruzamento aqui perto de casa. Quando começou, era quase um bebê. Loirinha, de cabelos cacheados, conseguia dos motoristas não só uns trocados, mas alguns sorrisos, uma palavra simpática, vez por outra até, dos mais culpados, um carinho na cabeça.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2010 | 00h00

Por um tempo, deu uma sumida. Então, semana passada, voltou. Tomei um susto: a menina cresceu. Ainda não é uma mulher, embora criança já não a descreva. Está ali naquela zona cinzenta, ou rósea (negra?), onde convivem bonecas e sutiãs. Ou deveriam conviver, pois a menina não tem nem um, nem outro.

E, se a falta de bonecas era um triste índice da nossa miséria social, a ausência do sutiã obriga-nos a encarar fantasmas ainda maiores. Mesmo que pelo retrovisor, como faz o senhor do Corolla. Quando ela ofereceu chicletes, ele recusou, sem olhá-la, mas, assim que ela sai, em direção ao carro de trás, ele cola as pupilas no espelhinho e observa o corpo que se afasta ? suas ideias oscilando entre Nabokov e Gilberto Freyre: "O corpo jovem, os peitos arrebitados, a necessidade, ela ali, a toda hora, andando pelos carros, cruzando todo tipo de homem, alguém há de... Será que uma hora ela não... Imagina só ela..." Então cai em si e mexe no rádio, aflito, tentando mudar de sintonia.

Nem todos a encaram com peso na consciência. Os dois garotos no Golf, por exemplo, conversam tranquilos, fitando-a. "Aquela ali, com um banho, cê encarava?!" "Ô!" Depois riem o riso livre e obsceno dos homens sem crise.

A senhora no ônibus tem raiva nos olhos. "Desavergonhada! Por que não cobre esse corpo? Essa barriga de fora... Tá provocando! Depois reclama se acontece alguma coisa. Vende chiclete? Tá bom! Isso aí é só fachada, eu bem sei o que ela quer..."

O que quer a garota? Eu não sei. Desde que se viu por gente, anda entre os carros, mendigando moedas, às vezes recebendo um sorriso compassivo, uma palavra simpática de um motorista mais culpado. Até outro dia, era o cocô do cavalo do bandido. (Um cocô loiro, é verdade, o que a colocava no grupo de elite dos cocôs, mas ainda assim, cocô).

Então, de uma hora pra outra, sem ter de fazer absolutamente nada, dá-se conta de que seu status no mundo mudou. Lumpen Lolita, ela é simultaneamente o último degrau da sociedade e a fatia mais desejada: menor abandonada, descalça e analfabeta, ninfeta loira, de seios arrebitados. O que ela vai fazer com isso?

Torço sinceramente para que engorde, o mais rápido possível.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.