'Crônica é como uma conversa boa'

ENTREVISTA

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

Humberto Werneck

Jornalista e escritor

O jornalista e escritor Humberto Werneck, de 65 anos, diz que de uns tempos para cá se tornou um "aspirador de inspiração", sempre com uma caderneta na qual anota tudo o que possa render história. Autor da premiada biografia O Santo Sujo (2009) e da antologia O Espalhador de Passarinhos e Outras Crônicas (2010), entre outros livros, ele tem a partir de agora uma razão a mais para vasculhar a rotina em busca de ideias. No próximo domingo, dia 5, estreia como colunista do Estado. E pretende usar seu espaço semanal no Metrópole para se dedicar ao gênero que, afirma, influenciou sua geração: a crônica. Mas uma crônica à moda antiga, no estilo de Drummond e Rubem Braga. Ele explica na conversa a seguir.

Ao aceitar o convite para ser colunista do Estado, você comentou que pretende fazer crônica à moda antiga. É algo que falta hoje nos jornais, na sua opinião?

Sim. Hoje chamam de crônica uma série de outras coisas, comentários, editoriais. Vejo a crônica de forma diferente. É uma ilha de subjetividade dentro da objetividade do noticiário. É difícil definir. Tem uma história gozada do Rubem Braga que, quando perguntaram para ele o que seria crônica, respondeu: "Olha, se não é aguda, é crônica". Vejo a crônica como uma conversa boa, uma coisa muito amigável com o leitor.

O Brasil foi um dos países onde esse gênero mais se disseminou no século passado. O cotidiano urbano hoje no País ainda é propício a esse formato?

O leitor mudou, o jornalismo mudou. A imprensa de hoje não é como era a dos anos 50, 60, quando tínhamos nos jornais escritores como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz... Mas acho que ainda existe, sim, espaço para isso. O que me alertou para essa possibilidade foram os quase dois anos em que Otto Lara Resende escreveu para a Folha de S.Paulo, de maio de 1991 até a morte, em dezembro de 1992. Eram coisas que até tinham um gancho na realidade, mas que permitiam a ele ir, num tom de conversa, para outros lados.

O que pode virar assunto nas suas crônicas, por exemplo?

Algo relacionado ao noticiário será mais raro. Precisa ter a ver com atualidade, mas mais com fatos cotidianos que acontecimentos públicos. Por exemplo, na Flip de 2008 eu estava na pousada tomando café da manhã e comecei a observar um casal de meia-idade que conversava, e daí fiz um texto chamado Casados Que Conversam. Quando veio a reforma (ortográfica), fiz um contando que voltei à legalidade, porque tenho W e K no nome. A coisa vai em tom de conversa, não é reportagem. Vou ler o finalzinho para você entender mais ou menos o tom (procura a página em O Espalhador de Passarinhos): "A reforma baniu o trema exceto nos nomes próprios (...). Faz sentido: não ficaria bem dar a um ser humano o mesmo tratamento que os estudiosos da língua reservaram à linguiça. Já pensou a Gisele Bündchen sem essas duas coisinhas que ela tem em cima?". E puxo também histórias antigas. Quando saiu a biografia Clarice, do Benjamin Moser, lembrei que a primeira entrevista que fiz na vida foi com ela. Foi um desastre. Ela me maltratou, só faltou me bater. Daí escrevi uma que recebeu o nome Meu Traumatismo Ucraniano.

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