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Crônica de uma morte anunciada

"Vamos ver se tu é corajoso. Vamos, machão", diz o pai.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2014 | 02h02

"Eu fico com pena de ti, cara. Tua mãe te botou no mato. Te abandonou", afirma o pai.

"Tua mãe que andava com tudo que é homem aí, ó! Ela que era vagabunda", diz a madrasta.

"Eu sei que tua mãe é o máximo para ti, mas simplesmente ela te abandonou", diz o pai.

"É… 'Froinha', que não é capaz de falar. Se fosse macho, falava melhor!", afirma o pai.

"Próxima vez que tu abrir a boca para falar de mim, eu vou agredir mais", afirma a madrasta.

"Tu não sabe do que eu sou capaz. Eu prefiro apodrecer na cadeia a viver nesta casa contigo incomodando", diz a madrasta.

"É, vamos ver quem tem mais força. Vamos ver quem vai para baixo da terra primeiro", afirma a madrasta.

"Teu fim vai ser igual ao da tua mãe", diz a madrasta.

"Vai lá, Bernardo! Ô, cagão! Ô, cagão, desce lá, cagão! Cagou nas calças? Cagou nas calças?", diz a madrasta.

"Trouxa, retardado… Esse guri é louco, um retardado", afirma a madrasta.

Essas são algumas frases pinçadas dos vídeos gravados no celular do pai do garoto Bernardo Boldrini, assassinado em abril de 2014 em Frederico Westphalen (RS), revelados há duas semanas pela RBS TV e pelo site G1. Os registros tinham sido apagados, mas foram recuperados pela perícia. O pai e a madrasta estão presos, aguardando julgamento. As imagens revelam tortura psicológica, com requintes de sadismo e crueldade. Há humilhação, pressão emocional e ameaças explícitas.

Tudo o que não deve ser feito em um relacionamento com um filho está escancarado nos vídeos. Não é à toa que o menino apresentava dificuldades severas de adaptação à sua casa e à sua família, descontrole emocional e momentos de agressividade. Anormal seria se ele assistisse de forma passiva, sem reagir, a esse trator emocional que insistia em passar sobre ele há anos.

Hoje cerca de três em cada dez crianças brasileiras têm pais que se separaram e que, muitas vezes, vivem novas relações afetivas. Regra básica: é fundamental preservar para a criança a imagem e o papel de pai e de mãe, mesmo que a separação tenha gerado uma ferida emocional difícil de lidar. A criança não tem nada a ver com a mágoa que, eventualmente, um pode sentir do outro. Em caso de morte de um dos pais, a preservação da imagem de quem se foi tem de ser feita ainda com mais cuidado, pois a criança pode estar mais fragilizada, principalmente em situações trágicas como o suposto suicídio da mãe de Bernardo (que, para muita gente, pode não ter se matado).

Humilhar a criança, questionando suas dificuldades, masculinidade, limitações e oscilações, também é um comportamento inaceitável por parte dos pais. Essa desvalorização gera ambivalência emocional (a mesma pessoa que diz gostar de mim me trata sempre mal), que é muito perigosa para o comportamento e o futuro dos jovens.

Construir uma relação baseada na violência, na agressividade e na crueldade (mesmo que isso se passe apenas na esfera emocional) é dificultar e comprometer a capacidade de estruturação psíquica de um ser em desenvolvimento. Lógico que limites tem de ser colocados, mas nunca usando táticas de terror! Se há um escalonamento das dificuldades em se lidar com um filho, é fundamental que seja buscada orientação e ajuda. Psicólogos, médicos, assistentes sociais e redes de apoio devem ser acessados.

Voltando ao caso de Bernardo, as imagens parecem derrubar a hipótese de que o pai desconhecia as ameaças e o nível de violência praticada em casa. O vídeo está recheado de exemplos de agressão emocional e ameaças de morte. Até onde se sabe, eram gravados de forma sistemática, como forma de provar que o garoto tinha um comportamento inadequado. Mas quem não teria?

Fica claro que também falharam os mecanismos de avaliação e intervenção possíveis, antes que a tragédia acontecesse. Insistir em manter o garoto na casa, com as condições agora conhecidas, foi um erro.

É PSIQUIATRA

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