Charles Platiau/Reuters
Charles Platiau/Reuters

''Crítica é por má-fé ou desconhecimento''

Responsável pelo BEA festeja sucesso na busca das caixas-pretas e diz que resgate de corpos é problema da Justiça

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2011 | 00h00

Jean-Paul Troadec, diretor do escritório de investigações da França

Localizadas as caixas-pretas do Airbus que realizava há quase dois anos o voo 447, entre Rio e Paris, uma etapa ainda mais complexa e delicada está em curso. O governo francês confirmou que, por ordem da Justiça francesa, está tentando resgatar os corpos das vítimas do acidente no Oceano Atlântico.

Segundo o embaixador Philippe Vinogradoff, diplomata destacado pelo Ministério das Relações Exteriores da França para manter contato com as famílias de vítimas, uma tentativa será realizada com um dos corpos. Só então, diante do sucesso ou não da iniciativa, será tentado o resgate dos restantes. "A decisão não foi tomada pelo governo francês, mas pela Justiça."

Na França, a questão é tratada com a maior discrição possível e o assunto traumatiza as famílias - algumas das quais avessas à operação. No Rio, ao contrário, Nelson Faria Marinho, presidente da Associação de Familiares de Vítimas, mostra-se inconformado com a demora. "Queremos todos os corpos, porque as famílias precisam disso para realizar os sepultamentos. Caso contrário, a operação só vai trazer mais indignação e sofrimento a todos."

As críticas se concentram no Escritório de Investigações e Análise da Aviação Civil (BEA). Dentro da instituição, que desde a queda vive seu momento de maior tensão, há expectativa. Em no máximo dez dias, as caixas-pretas serão inspecionadas em Le Bourget, arredores da capital francesa. Só então se saberá se seus microchips resistiram aos dois anos de corrosão, a 3,9 mil metros de profundidade no Oceano Atlântico. Para o diretor Jean-Paul Troadec, a hora é de esperança, mas também de cautela, como destacou ao Estado.

As duas caixas-pretas foram localizadas. O senhor está otimista em relação à descoberta das causas do acidente?

Sim. Pela análise visual que nossos experts puderam fazer, os dois gravadores estão em bom estado, ou seja, não foram destruídos ou gravemente atingidos durante a queda do avião. Mas é preciso ser prudente neste momento. Não sabemos se os dados das caixas-pretas foram preservados depois de dois anos imersos a 3,9 mil metros de profundidade. Ainda que não possamos extraí-los em um primeiro momento, teremos recursos para fazer novas tentativas. Mas, neste instante, ainda vivemos a total incerteza sobre as caixas-pretas.

Também por isso a expedição no mar continua, em busca de outros destroços, de outras peças do avião?

Nós já identificamos outras peças da aeronave que consideramos importantes e vamos tentar pescá-las nos próximos dias. É o caso dos navegadores e dos calculadores (sistemas informáticos da aeronave), onde ficam armazenadas certas informações do voo. Vamos tentar localizar outros elementos no cockpit que podem nos ajudar a explicar o acidente. Se tivermos condições técnicas, vamos tentar pescar todo o cockpit.

Esta quinta fase estava prevista para durar dois ou até três meses. Qual é a perspectiva atual, agora que as duas caixas-pretas foram localizadas?

Nossa perspectiva é de que fiquemos até 8 ou 9 de junho na região do Atlântico onde estamos trabalhando. Depois disso, começaríamos a ter problemas logísticos, como combustível, suprimentos, etc. Mas até lá poderemos executar todo o nosso trabalho.

Uma questão delicada sobre a operação em curso no Atlântico é a busca dos corpos...

Eu não me pronuncio sobre esse assunto. A questão do içamento dos corpos eventualmente será feita por uma outra equipe técnica, que obedecerá as instruções dos oficiais de Justiça presentes a bordo do navio Ile de Sein.

As vítimas de famílias de vítimas no Brasil e na Alemanha e alguns experts independentes na França são muito críticos em relação ao BEA e aos dois anos de buscas no mar. Como o senhor responde a essas críticas?

Desde que localizamos as caixas-pretas, eu não paro de receber parabéns e de ouvir elogios à atuação do BEA. O desafio de encontrar os destroços da aeronave era imenso. Para que se tenha uma ideia, a superfície que vasculhamos representa um trilhão de vezes o tamanho de uma caixa-preta. Insistimos nas buscas e tivemos sucesso. Acho que isso é o mais importante. A meu ver, essas críticas ou são feitas com má-fé, ou com desconhecimento.

Os críticos também contestam a autonomia do BEA, uma vez que o escritório é controlado pelo governo francês, também acionista da Air France, da Airbus e da Thales, empresas envolvidas no processo. O que o senhor diz a respeito?

O BEA é um escritório independente, cuja autonomia é assegurada por lei na França. Nós nunca recebemos nenhum tipo de orientação em relação a nossos trabalhos de perícia de quem quer que seja. Além disso, para realizar nosso trabalho contamos regularmente com a colaboração de especialistas de centros de outros países, como Grã-Bretanha, que é um parceiro próximo, dos Estados Unidos e mesmo do Cenipa, do Brasil.

Eu imagino que o senhor, como diretor do BEA, tem uma hipótese para explicar as causas do acidente...

Na verdade, o BEA não trabalha com hipóteses, mas com fatos, com informações, com elementos. Eu não tenho hipóteses.

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