CRISE PARA SERVIÇOS E OBRAS DE CAMPINAS

Com três prefeitos nos últimos 90 dias e sem ter como pagar dívida de R$ 200 milhões com fornecedores, Campinas vive uma crise que atingiu as principais obras e serviços da cidade, a 3.ª maior do Estado e 8.ª mais rica do País. Da reforma inacabada do teatro municipal à falta de médicos na periferia, campineiros de todos os bairros sofrem as consequências de um escândalo de corrupção que derrubou dois prefeitos e 14 secretários.

DIEGO ZANCHETTA / TEXTOS, EPITÁCIO PESSOA / FOTOS, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2011 | 03h02

Cinco das principais obras deixadas incompletas pelo prefeito cassado Hélio de Oliveira Santos (PDT), que somam R$ 113,2 milhões, ou estão paradas ou sem previsão de inauguração. Todas deveriam estar prontas, como a Praça da Juventude, conjunto esportivo que deveria estar funcionando desde abril em uma das regiões mais carentes de Campinas, o Jardim Carlos Marighella. A obra é exemplo do abandono que atinge a mais rica e moderna cidade do interior paulista, responsável por 15% da produção científica nacional.

Nos últimos seis anos, pelo menos R$ 660 milhões foram desviados dos cofres da prefeitura, segundo o Ministério Público Estadual. O montante é superior à verba que o município havia reservado para todos os novos investimentos de 2011.

Sem dinheiro em caixa, o novo governo não consegue concluir nem um conjunto de quadras e piscinas de R$ 2,8 milhões. "Não temos como pagar até porque não sabemos se o que essas empresas pedem é correto. Há indícios de que os projetos das obras eram mal executados de propósito para que depois pedissem mais aditivos do governo", afirmou ao Estado Alcides Mamizuka, novo chefe de gabinete da prefeitura.

Os pilares do futuro ginásio do Jardim Carlos Marighella estão no meio de um terreno vazio, cercado por favelas. Não existe mais nenhum funcionário no canteiro de obras. Do lado de fora do que era para ser a maior área de lazer para uma população de 80 mil pessoas dos bairros vizinhos, crianças seguem jogando bola no asfalto, em golzinhos construídos com trave de madeira.

"Pelo menos antes a gente podia jogar bola na areia onde ficavam esses pilares. Prometeram construir quadra com iluminação, biblioteca, e até agora nada", lamenta o catador de papelão Germano Luís Almeida, de 24 anos. No mesmo bairro faltam médicos nos postos de saúde e a espera por consulta com um ortopedista chega a três meses.

Empresas responsáveis por obras públicas e fornecimento de remédios nos hospitais argumentam ter reduzido funcionários ou mesmo parado serviços após seguidos atrasos de pagamentos.

Maior teatro público de Campinas, o Castro Mendes, por exemplo, deveria ter reaberto as portas em agosto, depois de reforma de R$ 8 milhões que já dura quase dois anos. Mas a empreiteira responsável reduziu dois terços dos funcionários por causa dos atrasos.

A reportagem do Estado esteve no teatro e, segundo engenheiros, nem 20% da obra está concluída. A MVG Engenharia pede um aditivo de R$ 3 milhões para finalizar a reforma, o que seria um acréscimo superior aos 15% permitidos legalmente. "A reforma começa, depois para mais duas semanas. É uma pena, o teatro sempre foi um cartão-postal de Campinas e agora virou uma montanha de entulho", reclama o mecânico Alberto Carvalho, de 58 anos, morador vizinho ao Castro Mendes, na Vila Industrial. Não existe previsão para o teatro reabrir e o governo deve fazer auditoria no contrato da reforma.

Enchentes. Os campineiros também têm problema histórico de alagamentos por causa de velhas tubulações que não suportam o volume de água no período de chuvas. Mas a crise financeira impede a conclusão da maior e mais importante obra antienchente de Campinas, cujos contratos de R$ 38 milhões foram assinados em julho.

São a drenagem e o piscinão do Ribeirão Quilombo, que deveriam ter começado em julho. A urbanização do Parque Anhumas, também com contratos já assinados de R$ 58 milhões e que prevê remoção de 400 famílias de áreas de risco, não pode ser concluída por falta de verbas. A obra deveria estar pronta desde dezembro de 2010.

Assim como outros moradores da cidade, o empresário Geraldo Paralluppi, de 46 anos, sócio de uma rede de concessionárias, tenta entender a paralisia de uma cidade que tem impostos caros. "Só espero que essas pessoas que roubaram tanto dinheiro público paguem pelo mal que fizeram à população."

Outra promessa. A principal obra na área da saúde também está parada pela falta de verba nos cofres da prefeitura. Bandeira do prefeito cassado Dr. Hélio, que também é médico, o Pronto-Socorro Metropolitano seria erguido em terreno na Vila Padre Anchieta que segue vazio e cheio de entulhos.

A unidade que atenderia moradores das vizinhas Sumaré e Hortolândia para desafogar o Hospital das Clínicas da Unicamp já foi licitada em R$ 7,4 milhões e deveria ter sido inaugurada em setembro. Até agora, porém, as obras não começaram. "O duro é que o terreno vazio virou depósito de lixo. A prefeitura não constrói nada e também não coloca vigias", reclama a aposentada Lourdes de Castro, de 61 anos, moradora vizinha do terreno.

Enquanto isso, o único pronto-socorro que fica nessa região da cidade segue lotado e com falta de médicos. "Nem clínico-geral tinha nos últimos dias", lamenta Marco Antonio dos Santos, pasteleiro de 46 anos.

A espera por uma consulta chega a cinco horas até no Centro Hospitalar Ouro Verde, que deveria ser uma referência no sistema de saúde municipal.

Sem ter como pagar R$ 200 milhões a fornecedores, maior cidade do interior

paulista sofre com reflexos de escândalos políticos e desvios de verbas públicas

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