Crise faz escola de samba de SP apelar para artigo nacional e reciclar fantasia

Com a alta do dólar, agremiações recorrem a produtos mais baratos e à criatividade para montar os desfiles e passar pelo Anhembi

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2016 | 03h12

A crise chegou ao carnaval e agora obriga as escolas a se reinventar para não perder o brilho na passarela. Com a cotação do dólar na casa dos R$ 4, o uso de produtos importados em fantasias e carros alegóricos virou exceção neste ano. Nem mesmo as mercadorias chinesas ajudaram a baixar o custo dos desfiles. O jeito foi produzir a festa com artigos quase 100% nacionais e usar a criatividade para customizar pedras de plástico, economizar nas plumas e reaproveitar o que for possível.

A lista de materiais com preço nas alturas inclui itens imprescindíveis para as escolas, como ferro, fibra e isopor, usados na montagem dos carros. Presidente da Rosas de Ouro, escola do Grupo Especial do carnaval paulistano, Angelina Basílio diz que a alta passou dos 40%. “E esses são materiais que não podemos trocar. O ferro, por exemplo, é o que dá segurança aos carros e a todas as pessoas que desfilam neles”, afirma Angelina.

A inflação também afetou o caixa das escolas. Artigos mais simples, mas usados em grande escala, como fitas, penas, contas e galões, estão mais caros. Fornecedor das escolas e blocos de São Paulo há 33 anos, o comerciante Elias Emile Ayoub, do Palácio das Plumas, afirma que o movimento diminuiu ao menos 30% neste ano. “A queda é reflexo da alta do dólar, mas não é só, já que 90% dos meus produtos são nacionais. As escolas estão economizando mesmo, reaproveitando e dando preferência a artigos mais baratos”, diz.

Segundo Ayoub, a diferença entre nacionais e importados chega a 72%. É o incremento, por exemplo, das plumas importadas sobre as nacionais em fantasias de destaques ou alas. Na loja do comerciante, o quilo do produto nacional custa R$ 350, enquanto o importado sai por R$ 600. Já um rolo de 50 metros de fita decorativa nacional é vendido por R$ 3,80 e importado por R$ 5,80.

Para assegurar o luxo no sambódromo, o jeito é usar a criatividade, diz o carnavalesco Jorge Freitas, da Império de Casa Verde. “Isso é parte da nossa função, não deixar a qualidade cair. Um dos segredos é definir um planejamento com antecedência e seguir à risca. Isso faz toda a diferença. Os produtos importados que usaremos, como tecidos, foram comprados antes de junho, quando o dólar estava mais baixo.”

Responsável pelo desfile da Mocidade Alegre, o carnavalesco Sidnei França diz que a troca de artigos importados por nacionais não será sentida no sambódromo. “Ninguém foi pego de surpresa. Todo mundo sabia das dificuldades. Quem se organizou vai conseguir apresentar um bom desfile, igualmente luxuoso, apesar da crise”, afirma. Para não perder componentes, a escola manteve o reajuste praticado no ano passado no preço das fantasias. Os modelos estão “só R$ 50 mais caros”. Na média, saem por R$ 600, valor que pode ser parcelado.

Patrocínio. A crise prejudica também a obtenção de patrocinadores. Neste ano, os maiores apoios vão para três escolas – o Grupo Especial tem 14. São elas: Vai-Vai, X-9 Paulistana e Unidos de Vila Maria.

Atual campeã do Grupo Especial, a Vai-Vai fará homenagem à França com financiamento de três empresas daquele país – a companhia aérea Air France, a escola de idiomas Aliança Francesa e a Ticket, além do Consulado-Geral da França no Brasil. Já a X-9 vai levar a história do açaí para o sambódromo com verba da Açaí Frooty.

O patrocínio mais polêmico, no entanto, veio do litoral. A prefeitura de Ilhabela vai repassar R$ 989 mil à Unidos de Vila Maria, que vai contar a história da ilha paulista no Anhembi. Mesmo diante da crise e em meio a críticas da população, os vereadores aprovaram o repasse da verba.

As cotas de patrocínio, juntamente com o pagamento dos direitos de imagem – a Rede Globo repassa cerca de R$ 1 milhão a cada escola –, e a divisão das vendas com ingressos e CDs oficiais do carnaval bancam a maior parte dos gastos das agremiações. Mas, de acordo com o custo do desfile, a conta não fecha. No samba paulistano, as campeãs investem cerca de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões por ano.

“Estamos nos desdobrando para manter o luxo na avenida, mas depois vai ser difícil pagar as duplicatas. Muita escola vai ficar com dívida neste carnaval”, diz Angelina.

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