Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 06h00

SÃO PAULO - Grupo mais afetado pelo aumento do desemprego no País, muitos jovens deixaram de ver o alistamento militar como uma obrigação e passaram a enxergar nele uma opção diante da crise. No Estado de São Paulo, nos últimos dois anos, dos cerca de 350 mil rapazes que fazem anualmente o alistamento, 10%, ou 35 mil, queriam entrar para o serviço militar, em vez de serem dispensados. Até 2014, apenas 5% diziam querer ser convocados, segundo informações do Comando Militar do Sudeste.

Para o tenente-coronel Lúcio Ferreira de Medeiros, da 4.ª Circunscrição Militar de São Paulo, o aumento da procura está relacionado ao momento econômico. No terceiro trimestre do ano passado, o desemprego entre os jovens de 14 a 24 anos chegou a 27,7%, enquanto a taxa total foi de 11,8%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“É um aumento significativo para o Exército e, infelizmente, não temos condições de absorver muitos desses jovens”, disse Medeiros. Os incorporados têm 11 meses de estabilidade e recebem um soldo inicial de R$ 769. Em São Paulo, são 8,1 mil vagas para as três forças (Exército, Marinha e Aeronáutica) – considerando apenas os que querem entrar para o serviço militar, são quatro vezes mais interessados do que vagas.

Por causa da concorrência, Kauê Neves dos Santos, de 18 anos, iniciou há algumas semanas um treinamento para se destacar dos demais candidatos nos exames físico e médico. Ele fez o alistamento obrigatório no ano passado e enfrentará a primeira seleção para o serviço militar.

Santos fez curso técnico de Edificações na rede pública, mas ao se formar teve dificuldade para encontrar emprego. No último ano, só conseguiu “bicos” como segurança. Por isso, viu o serviço militar como opção de emprego e estabilidade. “O mercado de trabalho está muito difícil. Achava que a área de engenharia iria me assegurar um bom emprego, mas não encontrei nada. Então, pesquisei e conversei com muita gente que dizia que o Exército poderia me dar mais oportunidades.” Santos espera conseguir trabalhar na área de engenharia da carreira militar.

Segundo Medeiros, a maioria dos convocados após um ano tem interesse em continuar no Exército, mas há ainda menos vagas – cerca de 10% a 20% para cada organização militar. “Nós lamentamos porque dispensamos muitos jovens bons, com vontade de aprender mais. Mas sempre dizemos que os aprendizados do Exército servem e são valorizados em qualquer emprego ou carreira que seguirem.”

Natan Laudino, de 19 anos, conclui em fevereiro o primeiro ano de serviço militar na Aeronáutica. Ele disse que gostaria de continuar na carreira, mas, se não for selecionado, pensa em retomar o curso técnico de fotografia que parou quando foi incorporado. “Foi um aprendizado muito bom, vou levar para toda vida. Aprendi sobre respeito, trabalho em equipe e a mexer em armamento, sobreviver na selva. Experiências que todo menino gostaria.” 

Tendência. Segundo Peterson Silva, professor de Relações Internacionais da Faculdade Rio Branco que foi pesquisador associado do Centro de Estudos Estratégicos do Exército em 2016, em outros países o serviço militar também atrai jovens em momentos de crise. “Estados Unidos e Reino Unido também registram variações que acompanham a economia. A carreira militar atrai pela estabilidade e pelo salário, como um concurso público. Para jovens de classe média e baixa, o serviço militar aparece como opção.” 

Silva disse que muitos adolescentes também são atraídos por uma visão “romantizada”. “Muitos têm referências do que viram em filmes, querem mexer em armamento, fazer o treinamento físico. Outra benesse é que o Brasil não tem histórico recente de participação em conflitos, então não há o mesmo medo de ser militar como nos Estados Unidos.”

Amarílio Ferreira Júnior, pesquisador de políticas educacionais da ditadura militar pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), afirma que o aumento da procura também está relacionado a uma retomada do prestígio do Exército. “Esses jovens não viveram a ditadura, quando os militares eram temidos. Hoje, o Exército recuperou sua confiança com a sociedade. Os militares são vistos positivamente e, consequentemente, muitos querem fazer parte.”

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José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 06h00

SOROCABA - Desde pequeno, o estudante Hudson Pio dos Passos, de 17 anos, tinha o sonho de ser jogador de futebol profissional. Destaque nas quadras da escola e nas “peladas” do Jardim São Guilherme, bairro onde mora, na zona norte de Sorocaba, ele passou por várias “peneiras” de clubes profissionais, mas não conseguiu um contrato. Na última quinta-feira, às vésperas de fazer 18 anos, o rapaz compareceu com o pai na Junta de Alistamento da 14.ª Circunscrição do Serviço Militar e pediu para servir o Exército. “Espero ser chamado”, disse.

Ele explicou a razão de querer trocar o futuro de calção e meias pela farda verde-oliva. “O futebol seria uma aposta arriscada e sair para o mercado de trabalho, com essa crise, fica bem complicado. Então, penso que fazer o Tiro de Guerra e seguir carreira no Exército é algo mais seguro. Acho que tenho físico e cabeça para isso.”

O pai do jovem, o encarregado de produção Irineu Pio dos Passos, de 59 anos, que o acompanhava, disse que ficou feliz com a decisão do menino. “Ele está concluindo o colegial e tem de fazer agora uma opção para o futuro. Levando em conta o atual momento do País, acho que é uma boa escolha, tem chance de crescer.”

Interesse. De 15 jovens abordados pela reportagem na saída da Junta Militar de Sorocaba, quatro disseram que pretendem seguir a carreira militar e, destes, três não tinham esse propósito antes. Só um quer entrar para a Marinha porque o pai trabalha no Centro Aramar, em Iperó, cidade da região. 

A decisão dos outros leva em conta, principalmente, a dificuldade de emprego. É o caso de Renato Henrique das Neves, de 18 anos. “Tenho pouco estudo. Por necessidade de trabalhar e ajudar em casa, só fiz o 1.º grau. O Exército dá salário e oportunidade para estudar.”

Morador da Vila Nova Esperança, na periferia, o rapaz conta que, desde os 13 anos, trabalhou como ajudante em feiras e supermercados, mas agora está desempregado. “Quando era criança, tinha serviço, mas era explorado. Agora que preciso trabalhar, não aparece nada.” O adolescente conta que não estava em seus planos seguir carreira no Exército. “Decidi por esses dias, quando comecei a ver a documentação para me apresentar.”

De acordo com Neves, alguns amigos no bairro, vizinho de uma comunidade, não gostam de polícia e zombaram da escolha. “Eles ‘tiraram uma’ comigo porque acham que polícia e Exército são a mesma coisa. Eu já acho que o Exército vai ajudar a mudar minha vida”, afirma. Como gosta de animais, o jovem disse que pretende conseguir um posto na Cavalaria. “Lá, eu acho que tem cavalos, não tem? Ou é só tanque?” 

Para entender. O alistamento militar no primeiro semestre é obrigatório para todos os jovens do sexo masculino no ano em que completam 18 anos. Sem ele, o cidadão fica impedido, por exemplo, de tirar passaporte, ingressar no serviço público ou ser matriculado em qualquer instituição de ensino – incluindo universidades. 

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Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 06h00

SÃO PAULO - Desde o ano passado, o Exército começou a fazer o alistamento obrigatório online em 21 unidades da federação. A expectativa é de que em janeiro do próximo ano o serviço chegue a todo o País, o que deve resultar em uma economia de R$ 2 milhões.

 

Anualmente, cerca de 1,8 milhão de jovens são alistados em todo o território nacional. Para este ano, a previsão é de que 97 mil sejam incorporados a Exército, Marinha e Aeronáutica. Conforme o Exército, nos últimos anos, entre 92% e 96% dos incorporados queriam entrar para o serviço militar. Com o sistema online para o alistamento, foi retirada do formulário a pergunta quanto a ser voluntário ou não. Portanto, tal índice deixará de ser tabulado.

Em São Paulo, o alistamento online ainda não chegou ao interior, mas já é feito em 32 cidades da Grande São Paulo. E a previsão é de que seja utilizado neste ano por pelo menos 150 mil jovens.

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