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Crimes em casa

Muito tem se falado sobre as causas de um possível aumento da violência na adolescência. No entanto, dois crimes que ocorreram nas últimas semanas chamam a atenção por uma peculiaridade: foram cometidos por pessoas muito próximas das vítimas, o que aponta para a necessidade de uma análise um pouco distinta das que vêm sendo feitas.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h40

No crime mais recente, ocorrido na zona norte de São Paulo, a se confirmar a versão da Polícia Civil, um jovem de 13 anos teria matado pai e mãe policiais, avó e tia-avó, no dia seguinte teria ido à escola como se nada tivesse acontecido e, depois, teria cometido suicídio ao retornar para casa. Os depoimentos iniciais, sempre segundo a polícia, apontaram que o garoto havia manifestado a um amigo diversas vezes o desejo de matar os pais, fugir de casa e se tornar um matador de aluguel.

Há duas semanas, uma jovem de 17 anos em Jataí (GO), juntamente com uma amiga de 16 anos, teria planejado e executado a morte de uma garota universitária de 18 anos que, segundo a suspeita, teria sido sua namorada. A motivação do crime seria o fato de ela não se conformar com o fim desse suposto relacionamento.

Quando se trata da violência cometida por jovens, a exclusão social, a desestruturação da família e o consumo de drogas são apontados como as causas mais comuns. Mas nos casos recentes há questões mais íntimas e profundas, que, por difíceis de serem identificadas, chamam a atenção. Como prevenir esse tipo de agressão que, em muitas situações, talvez seja mesmo imprevisível?

Para justificar um comportamento desse tipo, a psiquiatria e a psicologia tentam encontrar patologias ou distúrbios que justifiquem uma conduta antissocial. Em algumas doenças em que há um quadro psicótico (quebra de contato com a realidade), delírios e alucinações podem levar o jovem a cometer um crime bárbaro. Por exemplo: a pessoa pode acreditar que está sendo ameaçada e perseguida e partir de forma mais impulsiva para uma ação. Depressão, mania ou esquizofrenia de difícil controle ou sem tratamento adequado podem levar a comportamentos agressivos. Importante lembrar que muitas drogas (cocaína, crack) potencializam o risco de um quadro delirante.

Esse parece ter sido o caso de um crime que também ocorreu na última semana em Londrina (PR). Um homem de 30 anos, dependente, que parecia estar em delírio, após possível consumo de drogas ou, ainda, em abstinência, teria matado familiares e vizinhos.

Mas em crimes mais planejados, estruturados, como parecem ser o da família de policiais e o da estudante de Goiás, é difícil imaginar que um jovem psicótico conseguisse esse nível de organização. Nesses casos, é mais provável que um distúrbio de personalidade levasse a esse tipo de conduta. O que complica ainda mais é que, às vezes, durante muitos anos, o jovem com um transtorno de personalidade pode não apresentar um desajuste social ou comportamental muito evidente. Os pais e amigos ficam com a impressão de que é apenas o "jeitão" do jovem. E, na maioria das vezes, é só isso mesmo!

Nesse sentido, sem um olhar extremamente atento dos pais, professores e amigos (até mesmo em redes sociais), fica muito difícil prever o que está por vir. É algo semelhante aos crimes cometidos por jovens nos EUA, que levam uma arma para a escola e saem atirando em quem encontram pela frente. Previamente, esses jovens teriam dado poucas pistas evidentes.

Vários estudos tentam quantificar o peso que televisão, filmes e games violentos têm na formação desse jovem, que teria maior propensão a cometer crimes, mas poucos deles são confiáveis e conclusivos. Diminuir o acesso do jovem às armas, aumentar o nível de atenção para os desvios de comportamento, avaliação médica e psicológica e uma possível colaboração das redes sociais na identificação de mudanças impactantes de conduta dos jovens poderiam ajudar. Porém, evitar totalmente que esse tipo de situação aconteça é quase impossível!

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