Crianças em busca dos pais

Dispensadas das creches, e muitas chorando, elas saíram pela favela à procura de suas famílias

Paulo Sampaio e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Caminhando na rua até uma das escolas do Real Parque, na zona sul, a pequena Érika de Oliveira, de 11 anos, chorava - ela não conseguia encontrar a mãe nem o irmão mais novo no meio da confusão do início do incêndio. "Não quero que nada aconteça com eles", disse a menina, antes de se abrigar nos braços de uma assistente social. "Não quero perder a família."

Como o fogo atingiu os barracos próximos de pelo menos três creches e centros de assistência social infantil, era cena comum nas primeiras horas do incêndio crianças correndo pelas ruas da favela, com mochilas nas costas, muitas delas chorando. A principal preocupação era encontrar os pais. "Vi essa fumaça preta e comecei a pensar na minha mãe, que ficou em casa cuidando da vó", contou Wesley dos Santos, de 11 anos, que desmaiou no meio da confusão. "Ninguém sabe onde eles estão, me desesperei", contou.

À tarde, as crianças ficaram abrigadas nos centros comunitários, enquanto os pais tentavam salvar pertences. "Vim para ajudar a cuidar dessas crianças. Elas têm de ficar com alguém enquanto os pais tentam minimizar os danos", afirmou a aposentada e voluntária Ana Lúcia Abelardo, de 63 anos.

Atleta. Um poodle sujo passa perto da carcaça queimada da máquina de lavar do carroceiro José Cassio de Oliveira Santos, de 32 anos: "Olha o fogão, a geladeira, perdi tudo", diz Cássio, pisando nos escombros de seu barraco. Nascido em Paraisópolis, ele se mudou para a favela do Real Parque aos 2 anos. Casado, pai de um casal de filhos, também é esportista amador e corre 15 quilômetros por dia.

Cássio diz que a corrida diária o ajuda a "vencer a vida". "Desde que comecei, parei de fumar, passei a frequentar a igreja e me sinto muito mais tranquilo", diz. A família está temporariamente abrigada na casa da irmã da mulher de Cássio.

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