'Criança tem de ser protegida', diz médico

O psiquiatra Jorge Jaber, de 60 anos, tinha 15 quando um amigo morreu de overdose. Dedicou os últimos 31 anos de sua vida ao tratamento de dependência química, depois de fazer pós-graduação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Nesse período, atendeu 30 mil pacientes, internou 9 mil deles. Defensor da internação compulsória e formulador do embasamento teórico que levou à publicação da portaria que determina a internação involuntária de crianças no Rio de Janeiro, Jaber é contra punição do usuário de droga. "Não se pune doente. Trata-se."

Entrevista com

CANOAS (RS) , O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2012 | 03h05

O crack tornou mais difícil o tratamento dos dependentes químicos?

Temos uma dificuldade técnica em relação ao crack, que tem uma "virulência", digamos assim, muito maior. Mas hoje é mais fácil falar em tratamento, porque as pessoas já reconhecem que é uma doença e que essa doença precisa de cuidado médico, não de castigo. É uma epidemia. No ano passado, eu tinha 35 pacientes internados em abril. Agora, tenho 81. E não há vagas. Fui acionado judicialmente porque não tinha como internar um paciente e ele está cobrando danos morais.

O senhor falou que não se deve castigar. Defende a descriminalização da droga?

Sou a favor da descriminalização do usuário, mas totalmente contra a liberação. Existem modelos muito específicos de liberação da droga e nenhum deles se aplica ao Brasil, um país de tamanho continental e que não tem como dar conta, na assistência médica, do número de pacientes que pode surgir. A pergunta que eu faço é: se liberar, como a gente faz com as crianças? Porque hoje não se consegue evitar a venda de álcool e tabaco para as crianças. A gente tem de discutir é se a venda de álcool e tabaco deve permanecer liberada no País.

A internação compulsória é um tema polêmico e a sua eficácia, contestada. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Eu publiquei um trabalho em uma revista científica internacional no qual demonstrei ter atingido 66% de eficácia no tratamento com pessoas internadas involuntariamente. São dois terços dos pacientes. Ninguém pergunta para quem sofreu um infarto agudo do miocárdio se quer ser internado ou não. No adulto, até cabe a discussão se ele deve ser ou não internado para tratamento de uma dependência química. É questão de opinião. Mas com criança não tem essa discussão. Ela tem de ser protegida. E é disso que trata a portaria que vale no Rio de Janeiro. / C.T.

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