Criança põe fim a próprio sequestro

Levada pela prima e o namorado, menina de 8 anos conseguiu telefonar para a polícia, que cercou casa na zona leste e a libertou

Camilla Haddad, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2010 | 00h00

Ao receber a ligação de E.K., de 8 anos, a atendente do 190 da Polícia Militar pensou se tratar de mais um dos 3,5 mil trotes infantis aplicados diariamente no serviço. Essa dúvida quase fez o sequestro de E. ter um desfecho trágico. Na 15.ª noite de cativeiro, a menina achou um celular e ligou para a PM, à 1h30, avisando que era mantida em cárcere privado pela prima de 14 anos. Após quatro minutos de conversa, E. convenceu a policial.

O relato, até então aparentemente fantasioso, ganhou vida e os apelos da menina foram atendidos. A soldado Elenice Gonçalves Louzada anotou os primeiros dados e passou a ligação para o sargento Edson José de Oliveira, supervisor do plantão do 190. O objetivo dele era fazer a menina identificar o local do cativeiro. "Pedi para ela olhar várias contas, de luz, de água, mas ela me dava endereços que eu não conseguia entender." Oliveira pediu então que ela procurasse um telefone da família. A menina buscou no celular da prima e o informou. Ao conversar com um familiar de E., o sargento obteve o endereço. Era madrugada de domingo, equipes de PMs foram ao local. Soldados arrebentaram o cadeado do portão. Encontraram a menina suja, deitada no chão. Assim que os viu, ela os abraçou e pediu para comer sopa, tomar banho e "descansar". Depois, foi levada até a mãe, no Parque São Lucas, na zona leste.

A adolescente havia saído para fazer compras e foi flagrada nas imediações. Os policiais a levaram para a Fundação Casa. Segundo a polícia, ela confessou o crime e acusou o namorado, Manoel Lopes de Araújo Filho, de 43 anos. Ele está foragido do Centro de Progressão Penitenciária de Tremembé desde março. A jovem disse que pretendia pedir entre R$ 10 mil e R$ 15 mil de resgate.

O sequestro. "Vamos até a feirinha? Eu vou comprar uma coisa para você." Foi com essa frase que a adolescente convenceu E. a sair de casa e ir com ela ao lugar que seria seu cativeiro. Nos 15 dias de cárcere, a garota teve de dormir em um armário e bebia água da torneira do banheiro. Fez apenas três boas refeições. A menina contou que apanhou logo depois de abrir a geladeira para pegar um pedaço de bolo. A polícia investiga se ela foi vítima de abuso sexual.

A mãe dela, que registrou o caso como desaparecimento, nunca pensou em sequestro. "Eu limpo ônibus", disse ela, mãe de outros seis filhos.

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