Criança deficiente é abandonada em casa por mãe

Menina, que tem hidrocefalia, foi encontrada por vizinhos com feridas nas costas; ela estava toda suja

Andressa Zanandrea, Jornal da Tarde

08 de novembro de 2007 | 11h17

Uma casa de três cômodos e um banheiro em Americanópolis, Zona Sul de São Paulo, tornou-se um verdadeiro cenário de horror para uma menina deficiente física de 8 anos. Ela foi encontrada por vizinhos por volta das 21 horas de quarta-feira, 7, deitada em uma cama, com fome e sede, muito suja e com feridas nas costas, que estavam infectadas por vermes.   Fotos: Werther Santana/AE Situação de sujeira no local onde  a garota foi encontrada por vizinhos   Y.A.S.O. tem hidrocefalia, o acúmulo de líquido no crânio, e meningocele, uma má formação na coluna, que a impede de andar. Ela mora com a mãe, Flávia Alves de Souza, de 24 anos, há cerca de um ano no local. Na noite de quarta, vizinhos ouviram a menina chorar e perguntaram, do lado de fora, se ela estava sozinha.   Com a resposta positiva, uma mulher resolveu entrar na casa e ficou horrorizada com a cena: muitas pilhas de louça em cima de um fogão e de uma pia entupida na cozinha, onde voava uma nuvem de pequenas moscas; papel higiênico e fraldas sujas no chão do banheiro. Na sala, havia várias roupas espalhadas pelo chão, garrafas vazias, marmitas descartáveis, frutas podres, comida estragada e pães embolorados espalhados pelo chão. Em um canto da sala, uma cesta básica, ainda fechada, e sacolas de supermercado com produtos de limpeza chamavam a atenção.   Vizinhos acusam Flávia de sair de noite, voltar só de madrugada e deixar filha sozinha   "Quando entrei, veio o vapor podre. Ela (Flávia) deixava a casa sempre fechada e só a luz do quarto acesa, então nunca sentimos o cheiro nem desconfiamos da imundície", contou a vizinha, que pediu para não ser identificada. A mulher driblou toda a sujeira e o lixo e foi até a menina, que estava debaixo de um cobertor. "Quando levantei a coberta, vi que ela estava cheia de fezes pelo corpo, nas roupas e até no cabelo. Virei o corpo dela e vi as feridas, cheias de bicho." A garota pediu por comida e água e também falou que queria tomar sol.   A polícia e o resgate dos bombeiros foram chamados. A menina foi levada para o Hospital Saboya, onde tomou banho e recebeu curativos, e ficou internada em observação. Quando entrou no carro dos bombeiros, a menina teria se preocupado com a mãe e dito que ela não iria gostar daquilo. A mãe foi localizada à 1h20, quando os policiais voltaram à casa. Ela foi levada ao 43º Distrito Policial, de Cidade Ademar, para prestar esclarecimentos e não quis falar à imprensa.   Vizinha protesta após a saída da mãe com homens da Polícia Militar   Em frente à casa, já dentro da viatura da Polícia Militar, a jovem disse à sogra que havia saído por volta das 19h30. Pediu que não avisasse aos pais do ocorrido e que cuidasse bem das crianças. Flávia foi ouvida, inclusive, por membros do Conselho Tutelar, a quem ela afirmou que só havia deixado a menina sozinha por duas vezes.   Há cerca de um mês, a irmã da vizinha que encontrou a garota passou por situação semelhante. Também teria ouvido a menina chorar, entrado na casa, que estaria menos bagunçada que desta vez, e limpado a criança, que também estaria menos suja. Na ocasião, a mulher teria conversado com Flávia e pedido para que não fizesse aquilo à filha. Flávia teria dito que a casa estava daquele jeito, pois tinha ido a uma entrevista de emprego, mas que a situação não se repetiria.   Vizinhos ficaram indignados com o que viram e disseram que, praticamente todos os dias, a mãe da criança sai no começo da noite e só volta de madrugada. "Minha filha de 17 anos cansou de cuidar dessa menina e falava que a casa era uma sujeira só. Muitas vezes a Flávia pediu que minha filha ficasse lá, com a garotinha, enquanto ela saía com o namorado e voltava de madrugada", afirmou a dona de casa Cristina da Silva, de 34 anos. Segundo ela, em diversas ocasiões, vários vizinhos cuidaram da menina, considerada muito alegre e boazinha apesar das dificuldades.

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