Criança 'certinha' pode esconder transtornos

Menino de 10 anos que se matou em escola é descrito como exemplar, mas nunca demonstrar raiva ou impulsividade deve servir de alerta aos pais

OCIMARA BALMANT , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h01

O fato de ser tímido, bem educado e bom aluno não causa estranhamento. Ao contrário, dizem especialistas, ajuda a explicar o ato do menino de 10 anos que atirou na professora e se matou na Escola Municipal Alcina Dantas Feijão, em São Caetano, quinta-feira.

"É a criança mais boazinha de todas, aquela que é exemplar, que pode ter um funcionamento mental psicótico que está acobertado", afirma Anne Lise Scappaticci, psicanalista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e terapeuta familiar.

Mas, apesar de ser um traço de personalidade, é possível procurar tratamento e prevenir que tragédias como essa aconteçam, explica a psicanalista.

O primeiro passo, segundo Anne, é a família estar alerta para comportamentos como esse. As crianças podem ser tímidas, isso não é problema, mas precisam expressar impulsividade, raiva e nervosismo. Se elas mantêm sempre um comportamento sereno, é sinal de que algo pode estar errado. Podem estar encapsulando sentimentos importantes.

"Quando a criança é extrovertida e bagunceira demais, os pais até procuram atendimento. Mas um filho introvertido acaba não recebendo cuidados. Como aparentemente não dá trabalho, ninguém se atenta. É um processo inconsciente", compara Anne.

Pedagogia. A escola também pode ajudar a intervir nesse processo. Apesar da comodidade de se ter um aluno aplicado e que não tumultua a aula, o professor precisa desconfiar dessa atitude e propor atividades que o ajudem a detectar problemas emocionais.

Silvio Barini Pinto, diretor do Colégio São Domingos, em São Paulo, conta que já conseguiu perceber esses "recolhimentos problemáticos" por meio de uma prática pedagógica que faz com que o aluno exercite sua subjetividade.

Após as aulas de leitura, por exemplo, os alunos têm de escrever de que forma aquele texto mexeu com ele. No caso de crianças menores, a análise de alguns desenhos chama a atenção.

"Muitas vezes, nos aparecem questões emocionais sérias, sinais de agressividade latente e daí agimos rápido", diz Pinto. A escola avisa a família e a criança é encaminhada para tratamento psicológico.

É importante, no entanto, que a escola não rotule a criança, ressalva a psicanalista e professora da PUC Silvana Rabello. "Identificar sofrimento é uma coisa, dar diagnóstico é outra. Não se pode esquecer que a função do educador é apenas a primeira. Se ele, além de acolher, decidir rotular, vai fazer com que a criança sofra ainda mais", diz.

Na investigação de transtornos mais sérios é recomendável, ainda, conversar com amigos mais próximos da criança. Apesar de pessoas com esse perfil terem poucos amigos, é comum que, antes de cometerem um ato extremo como o da última semana, elas contem para alguém o que estão planejando.

Idade crítica. Por fim, não se deve, de forma alguma, subestimar a capacidade das crianças. Mesmo as menores conseguem arquitetar uma ação violenta. E a fase da pré-adolescência é bem crítica.

Segundo Anne, é por volta dos 10 anos que o ego está mais fragilizado. "Eles acham que brincando vão sentir o prazer da infância, mas já não o sentem e, ao mesmo tempo, já não têm o adulto como referência."

Ingredientes suficientes para um rompante que pode ter a escola como cenário. Afinal, é nela que a criança se vê obrigada a se socializar e a prestar contas. Um esforço muito grande para quem não está bem.

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