Criação de moda evolui, mas produção continua defasada

Muitos dos tecidos inovadores vistos na Bienal eram importados e estilistas reclamam da mão de obra local

Flávia Tavares e Valéria França, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

O furacão midiático que se tornou a São Paulo Fashion Week cria expectativas de que, a cada desfile, uma grande inovação ou celebridade transforme a moda brasileira de vez. E, se isso não acontece, fica a sensação de que o evento foi inexpressivo.

Para especialistas, isso é sinal de profissionalização da semana de moda. "A evolução da SPFW está no fato de que as marcas conseguiram pular da moda puramente conceitual ou regional para a moda vendável, nacional e internacionalmente", diz Sandra Haragi, coordenadora da área de estilo dos cursos de Moda da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Segundo ela, as crises financeiras globais impuseram essa adaptação, não só no Brasil.

Além disso, o excesso de celebridades nem sempre é sinal de bons resultados nos cofres das grifes. "O evento está cada vez mais focado nos compradores. E, se é verdade que badalação atrai negócios, muitas vezes pulveriza, porque atrai pessoas que querem apenas ser vistas", diz Rosa Moraes, diretora da Laureate, mantenedora da Universidade Anhembi Morumbi.

Quando a semana de moda começou, em 1996, como MorumbiFashion, as grifes tinham mais prestígio que o evento. Hoje, muitas marcas querem entrar e não conseguem. E, quando finalmente fazem parte do calendário oficial, não permanecem por falta de estrutura comercial. "O evento dá visibilidade nacional e internacional", diz Renata Schumulevich, proprietária da FIT, marca que deixou o evento nos anos 2000. E é por isso que a SPFW reúne cada vez mais grifes com coleções mais comerciais.

"As pessoas acham que o evento está caído, porque não tem mais tumulto na porta, oba-oba", diz a consultora de moda Gloria Kalil. Para ela, a SPFW ficou mais restrita. "Há mais controle na entrada dos desfiles e da própria Bienal."

No entanto, a evolução da criação de moda nem sempre se traduz na produção no País. Muitos dos tecidos inovadores vistos na Bienal eram importados e estilistas reclamam da mão de obra local. "A indústria têxtil brasileira até tem tecidos bacanas, mas os custos de produção e os impostos absurdos nos tornam pouco competitivos. Quase todas as marcas buscam matéria-prima na Ásia", diz Amnom Armoni, coordenador dos cursos de Direção de Criação e Gestão Estratégica em Moda, também da Faap.

Quanto aos profissionais especializados, ele diz que, embora o Brasil tenha hoje 170 escolas de moda de nível superior, "nossa história de moda é muito recente". E a mão de obra para costura e modelagem está defasada. "Não tem ninguém treinando essa gente. Os estilistas reclamam, mas eles mesmos poderiam investir na formação."

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