Crescem ameaças a mulheres e cai nº de agressões

Para especialistas, aumento de denúncias ocorre por fatores como melhoria de renda e repercussão dos casos Eliza Samudio e Mércia

Bruno Ribeiro e Elvis Pereira, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2010 | 00h00

As mulheres vítimas de violência doméstica não estão esperando ser agredidas para procurar as delegacias especializadas da cidade de São Paulo. No primeiro semestre deste ano, segundo as Delegacias de Defesa da Mulher (DDM), houve em média 28 queixas de ameaças de companheiros por dia, ante a média de 27 em todo o ano passado. O registro de agressões físicas recuou de 23 para 19 diários, se comparado o mesmo período.

Para especialistas, as vítimas estão denunciando antes das agressões por fatores como melhoria de renda e repercussão de casos como os de Eliza Samudio e Mércia Nakashima. "Apanhei ontem, mas não quero isso para mim. Vai que ele faz de novo", desabafou a funcionária de uma fábrica, de 31 anos, à reportagem, na segunda-feira passada. Ela estava em uma DDM para denunciar o marido. "Ele está fazendo da minha vida um inferno", disse. Só naquele dia, a delegacia recebeu 12 queixas de agressão e ameaça.

Ao todo, entre janeiro e junho deste ano, 5.090 mulheres relatam nas Delegacias de Defesa da Mulher paulistanas serem vítimas de ameaças, de acordo com dados obtidos pela reportagem. No ano passado, a soma atingiu 9.787. Ou seja, a média diária subiu de 27 para 28. Já as agressões consumadas diminuíram. No primeiro semestre de ano, chegaram a 3.531 casos (média de 19 por dia). Em 2009 inteiro, foram 8.480 (23 ocorrências diárias).

Independência. Na avaliação da assistente social Fátima Marques, titular da Coordenadoria da Mulher da Prefeitura, a maior presença de mulheres no mercado de trabalho está entre as explicações para o aumento de denúncias de ameaça. Dados do Ministério do Trabalho mostram aumento de 22% no número de mulheres empregadas na capital, na comparação entre janeiro e outubro de 2009 e o mesmo período deste ano. Entre os homens, o aumento é de 20%.

"Entre as mulheres que não procuram ajuda após ameaça estão aquelas que não têm emprego, são dependentes financeiramente do marido", afirma Fátima. "Com elas, está o temor da separação", continua, "mas é porque elas ficam preocupadas com as crianças. O fato de haver independência financeira permite a ela pensar em abandonar o agressor". A assistente social ressalta, entretanto, que a violência atinge todas as classes sociais.

Fátima afirma que ainda há fatores que impedem o aumento das denúncias. Entre eles está a conivência da família com o agressor. "Chega um parente que fala "ele é um bom pai" ou "ele é trabalhador", o que impede a mulher de tomar uma atitude."

A promotora pública Maria Gabriela Mansour, especialista em violência contra a mulher, concorda com o "fator emprego" como um dos motivos para haver mais denúncias. "Mas casos como o da Mércia Nakashima e da Eliza (Samudio), que fazem as mulheres terem consciência que elas podem até serem mortas pelos namorados, também estimulam", diz. Segundo a polícia, Mércia foi morta pelo ex-namorado, o advogado e ex-PM Mizael Bispo de Souza. Já o goleiro Bruno Fernandes é apontado pela polícia mineira como responsável pelo assassinato de Eliza. Os dois tinham sido amantes.

A promotora afirma que há também o fato de os casos denunciados serem investigados. "Já consegui mandado de prisão para ex-namorado que ameaçava a companheira. A rede de proteção tem crescido", diz.

A psicóloga Ana Paula Mallet Lima, da Casa da Saúde da Mulher da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), atribuiu o maior número de denúncias de ameaça à nova geração de mulheres. "Hoje, a opinião das pacientes é sempre contrária à das mães e avós delas. As mães vão falar: "aguenta, não contraria o seu marido. Aceite porque eu aceitei"", diz. Fora de casa, entretanto, a reação é diferente. "Ela vai ouvir outro padrão: "Você tem de tomar uma atitude"."

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