GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Em São Paulo, cresce o número de opções para quem quer morar em menos de 30 m²

Os empreendimentos estão localizados, em sua maioria, no centro e na zona sul. Imóveis atraem jovens, estudantes, divorciados, idosos e moradores de outros municípios, que costumam permanecer na capital só nos dias úteis

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2017 | 03h00

Dá para encaixar uma vida de apartamento de três quartos em menos de 30 metros quadrados? Para a aposentada Regina Ferreira, de 64 anos, a troca para uma quitinete pouco acima dessa medida exigiu muitos “desapegos”, que foram do rack da sala até metade das calças jeans. A paulistana enfrentará, contudo, mais uma mudança em 2018: deixará o local, em que vive há seis anos em Campos Elísios, por um studio de 14 m² no Bom Retiro. “Menos é mais. A gente tem de aprender a viver com criatividade”, defende.

Regina define a mudança como um “novo desafio”. Para ela, a palavra-chave é “adaptação”. “Eu tinha muita coisa que não precisava”, explica ela, que recentemente aderiu a grupos de escambo no Facebook para dar destino ao que não usa mais. 

Quando pronto, o studio de Regina (além de outros 14 vizinhos) será a menor unidade habitacional do País, segundo a incorporadora Vitacon – com preço de R$ 6,3 mil por m². O recorde deve ser batido pela própria empresa, que lançou em agosto o Nova Higienópolis com apartamentos de 10 m², para 2019, e valor previsto de R$ 99 mil.

Desde 2012, foram lançados 6.029 apartamentos com área útil inferior a 30 m² em São Paulo, dos quais 1.479 (24,5%) têm menos de 20 m², segundo levantamento do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi). Dados da entidade e da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp) mostram que, das unidades lançadas com até 1 dormitório na cidade, 15% têm menos de 30 m² e, 7,3%, são inferiores a 20 m². Para o professor de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), José Guilherme Magnani, nos microapartamentos a casa se converte em um “refúgio”, um “lugar de absoluta vivência individual”.

Moradores. Segundo as incorporadoras Vitacon, Setin e TPA Empreendimentos, referências nesse mercado, o principal público-alvo são estudantes, jovens adultos, divorciados, idosos e moradores do interior e da Grande São Paulo que ficam na capital só durante os dias úteis. É o caso do administrador de empresas Cristiano Oliveira, de 39 anos. Há dois meses em São Paulo, ele viaja para Taubaté, no interior, em todos os fins de semana para ficar com a mulher e o filho recém-nascido.

Seu período de permanência no apartamento é principalmente noturno, período em que se exercita na academia, faz refeições rápidas, toma banho e descansa. “Precisava de um lugar pequeno e só para mim”, comenta ele, que paga R$ 3 mil mensais de aluguel, além de condomínio (de R$ 500). 

Em todos os casos, os imóveis são pensados para apenas um morador – público que cresceu de 9,8% para 14,5% da população de 2004 para 2015, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para compensar o espaço reduzido, as empresas investem em áreas compartilhadas, como lavanderia, escritórios no modelo “coworking” e academia de ginástica, além de apostas no comércio, nos serviços do entorno e até nas opções de transporte público. Por isso, a maior parte se concentra no centro e na região do Brooklin e da Vila Olímpia, na zona sul.

Quitinete. Fora das grandes incorporadoras, empresas de menor porte também investem em unidades de tamanho reduzido, como a Semiphi, que aluga unidades em pequenos prédios do centro e da zona oeste. 

Em Santa Cecília, na região central, por exemplo, a estudante de Cinema Caroline Milani Lopes, de 21 anos, vive em uma quitinete de 15 m², reformada para esse tamanho em 2013. “Geralmente, no meu caso, um apartamento convencional precisaria ser dividido com alguém. Preferi não dividir e alugar um espaço pequeno, para ter privacidade.” Ali, a escrivaninha serve para estudar, trabalhar e comer. Já as roupas ficam em uma arara.

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Priscila Mengue, O Estado de São Paulo

24 Setembro 2017 | 03h00

Com um “boom” na década de 1950, o mercado de quitinetes foi recebido por parte do público como sinal de “modernização” da cidade na época, diz o arquiteto Walter Galvão. Pesquisador sobre o Copan, ele aponta que parte do projeto original foi modificada justamente para chegar ao número de 580 quitinetes, dentre as 1.160 unidades do total.

Professor de Arquitetura e Urbanismo da USP, Renato Cymbalista ressalta que a redução dos espaços residenciais ocorre, sobretudo nos últimos 20 anos, no mundo inteiro. No Japão, por exemplo, são comuns. “Antes era bacana ter casa grande, com piscina, quadra de tênis. Cada vez mais gente troca metro quadrado por localização”, diz. “Em certa medida, a ideia de racionalização do espaço é bem-vinda, mas não acredito em vida saudável em 14 metros quadrados.” 

Para o professor de Arquitetura e Urbanismo da Mackenzie, Valter Caldana, a compactação dos espaços tem três razões distintas: custo, interesse do mercado e mudanças sociais, incluindo famílias menores.

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Priscila Mengue, O Estado de São Paulo

24 Setembro 2017 | 03h00

“Em breve até pombo e joão-de-barro vão viver melhor do que humanos em São Paulo” é um dos comentários de uma notícia na internet sobre apartamentos de 19m²na cidade. Mas a principal idealizadora de empreendimentos do tipo na capital, a Vitacon, não teme reduzir as unidades ainda mais do que os 10 m² dos apartamentos anunciados pela incorporadora no mês passado. 

“Sem nenhum tipo de preocupação em ouvir críticas”, declara o CEO da empresa, Alexandre Lafer Frankel. “O nosso objetivo é resolver o problema de moradia no Brasil e no mundo. Se, para isso, o apartamento for menor e se para isso tiver de fazer apartamento debaixo da água, nós vamos fazer.”

Na Vitacon, o conceito de apartamento pequeno reduziu de 40 m² para 10 m² em oito anos, desde quando foi fundada. Para Frankel, imóveis do tipo são “experiência de vida”. “As pessoas querem morar mais perto e não ficar horas e horas no trânsito. Para muita gente, não faz sentido ter uma mesa de jantar ou uma sala gigante, porque se recebe tão pouca gente em casa. É um novo comportamento urbano”, diz ele, que se inspirou no layout de barcos, aviões e até automóveis para otimizar espaços. 

Dentro dessa ideia, ele aposta também no público de idosos. Prepara um projeto adaptado, com barras no banheiro, botão de emergência e espaços para cuidadores, dentre outros. “A ideia é acompanhar as pessoas em todas as fases da vida. Não existe imóvel para a vida inteira. Deveria ser flexível para as fases da vida da pessoa.”

Nicho.Prestes a inaugurar o Downtown São Luís, na República, na região central da capital paulista, com studios a partir de 18 m², a Setin Incorporadora desenvolveu uma pesquisa de mercado antes de investir nos microapartamentos. De acordo com o presidente da empresa, Antonio Setin, o levantamento constatou que o público que já vivia em quitinetes do centro buscava mais funcionalidade nos condomínios, desde zelador até guarita blindada. 

Para ele, a localização é o aspecto central desses empreendimentos. “A pessoa não compra nem aluga um apartamento. Ela compra um sanduíche: um bom transporte, uma boa diversão e leva um apartamento junto. É um modo de vida”, define. Mas Setin pontua que o modelo “tem seu limite”, por ser voltado a um público “single”. 

“Até brinco que não adianta fazer no Morumbi. Quanto menor o apartamento, mais a pessoa vai vivenciar o exterior. A vida acontece muito da porta para fora, seja no condomínio ou na padaria da frente”, diz Setin. 

Embora residenciais, empreendimentos do tipo também estão direcionados ao mercado de aluguéis diários, como o realizado pelo site Airbnb. Na área da Luz, também na região central paulistana, por exemplo, o Edifício Irradiação vai oferecer serviços especializados (como chave eletrônica) para atender também os compradores que alugarem os studios (vendidos a partir de R$ 290 mil, mobiliados), segundo o sócio da TPA Empreendimentos Mauro Teixeira Pinto. Datado de 1940, com projeto do arquiteto francês Jacques Pilon, o mesmo da Biblioteca Mario de Andrade, o edifício teve uso comercial originalmente. Foi modificado para abrigar unidades a partir de 20m², que serão lançadas ainda este mês.

 

LINHA DO TEMPO

Medidas das unidades habitacionais sofreram mudanças por causa das demandas sociais, econômicas e mercadológicas

 

Até anos 1940

Primeiros empreendimentos reproduzem proporções das residências, como se fossem “casas nas alturas”, como define o professor de Arquitetura da Mackenzie, Valter Caldana

 

 Anos 50/60

Modernização e verticalização, com “boom” das quitinetes

 

Anos 70

Dependência para empregados entra em desuso

 

Anos 80

Febre dos “prédios superequipados” e quartos no modelo suíte

 

 Anos 90

Com popularização da suíte, lavabo vira cômodo “fundamental”. Moda dos “prédios superequipados” entra em baixa por serem onerosos para o condomínio

 

Anos 2000/2010

Novos empreendimentos investem nas “varandas gourmets”, com espaço útil que chega a um terço do total do imóvel. Retorno dos condomínios com muitos serviços, dessa vez mais automatizados e com custo menor

Fontes: Marcos Carrilho, Renato Cymbalista, Valter Caldana e Walter Galvão

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Tendência é valorizar áreas comuns e pagar pelo uso

Investir em apartamentos ainda mais compactos foi a saída encontrada pelo mercado imobiliário para oferecer moradia acessível e a melhor localização possível.

O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2017 | 03h00

A nova leva de apartamentos compactos foi uma saída encontrada pelo mercado imobiliário para oferecer moradia acessível na melhor localização possível. Os preços anunciados, a partir de R$ 99 mil a unidade, são sedutores, especialmente por tratar-se de um imóvel novo no centro da cidade. Mas, diferentemente das quitinetes dos anos 1960, que ofereciam entre 30 e 40 m², estes mal comportam duas pessoas. Como foi possível que encolhessem tanto?

Os microapartamentos dos anos 2000 se multiplicam na velocidade em que se acentuam algumas tendências urbanas, como a retomada dos espaços públicos. Partindo do princípio de que só é viável morar em tão pouco espaço se der para passar boa parte do tempo fora, a rua se torna uma importante aliada. Pelo mesmo motivo, os edifícios de miniquitinetes oferecem facilidades e espaços de convivência nas áreas comuns. Em São Paulo, iniciativas como a Paulista Aberta, o Parque Minhocão, as hortas comunitárias e as associações em defesa de praças dão a medida da disposição das pessoas em conviver e aproveitar espaços compartilhados. 

Outra tendência que beneficia os studios é a cultura de pagar pelo uso, e não pela propriedade. Aplicativos de transporte em carros particulares e as bicicletas compartilhadas são exemplos. Assim, os studios configuram uma opção atraente para locação tradicional ou rápida, como a oferecida pelo Airbnb. Há ainda os “storages”, edifícios de guarda-volumes que complementam a falta de espaço nas novas residências e se disseminam por diversos bairros – assim como coworkings e cafés com Wi-Fi complementam a falta de um escritório em casa.

Mas claro que tudo isso só faz sentido em um contexto econômico que tornou mais difícil o acesso ao crédito imobiliário e reduziu drasticamente o poder aquisitivo do brasileiro. Apartamentos supercompactos estão mais para uma solução pontual, resolvendo o problema de quem precisa daquela localização por um certo período, do que para a materialização do sonho da casa própria. Para muita gente, morar deixou de ser um fim em si mesmo e se tornou um meio para reduzir custos e tempo de deslocamento, se manter nos estudos ou no emprego e garantir alguma qualidade de vida. Em uma metrópole como São Paulo, onde o trânsito faz o que é perto virar longe e o que é longe ser impraticável, as microquitinetes são um importante atalho para a vida prática. MARIANA BARROS*

*É COAUTORA DO PROJETO ESQUINA, PLATAFORMA DE CONTEÚDO SOBRE CIDADES

 

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