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Jairo Bouer
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Cravo, canela ou mentol?

Ele tem 17 anos, trabalha em um restaurante e, no intervalo, está no estacionamento fumando seu cigarro, aroma de cravo. Diz que fuma só dois ou três por dia, desde os 15 anos, e que não passa disso. Ao lado, o dono do estabelecimento, de 26 anos, também traga seu cigarro, sabor mentol. Conta que começou com a mesma idade do funcionário e hoje consome um maço por dia.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2014 | 02h07

Pergunto o que aconteceria se o veto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aos aditivos que dão sabor ao cigarro, que foi barrado na Justiça por ações da indústria tabagista, começasse a valer de fato e os cigarros com aromas sumissem de vez do mercado. Eles não têm certeza, provavelmente migrariam para outros cigarros, mas admitem que o gosto ia ficar pior. Um sorri para o outro com uma cumplicidade rara entre patrão e empregado!

A pressão sobre o cigarro aumentou nas últimas décadas e os fumantes enfrentam hoje mais obstáculos. O número deles diminuiu de forma importante no Brasil e no mundo ocidental. Mas algumas faixas da população parecem mais suscetíveis a experimentar cigarro e a se manter fumando. Os jovens e a população com menos acesso à informação são filões importantes, ainda explorados pela indústria do tabaco.

Reportagem do jornal Folha de S.Paulo, da semana passada, mostra que os fabricantes vêm investindo nas festas universitárias, patrocinando eventos e tentando burlar a norma da Anvisa que proíbe qualquer forma de propaganda de tabaco. Banners e material de divulgação das festas têm vindo associados a marcas de cigarro.

Na última semana, segundo a Reuters, o lucro operacional no terceiro trimestre de 2014 do negócio de cigarros no Brasil teve queda de 14,1% quando comparado ao mesmo período do ano anterior, tendo acumulado um recuo de 5,2% no ano.

Domingo no parque. Mais algumas batalhas vêm por aí. Londres pode proibir o fumo em locais públicos, como praças e parques. O estudo Melhor Saúde para Londres, feito pela Comissão de Saúde e divulgado pelo site da BBC há duas semanas, recomenda a medida, que poderia contribuir para uma diminuição do número de fumantes na cidade. São 1,2 milhão de pessoas que fumam na capital inglesa e quase 70 estudantes começam a usar cigarro todos os dias.

Segundo especialistas, ao se proibir o fumo em locais públicos, a exposição das crianças ao cigarro diminuiria. Várias cidades do mundo já adotam a medida, como Nova York e Barcelona.

No começo do ano, um artigo publicado aqui mostrava que, além do veto aos aditivos e a proibição de fumo em espaços públicos (fechados e, agora, abertos também), os maços genéricos (sem marcas, com grandes imagens de advertência), a proibição da exposição das embalagens nos pontos de venda e o aumento de impostos e do preço (além da proibição de maços com poucas unidades) são medidas defendidas pela área da saúde para impactar ainda mais a venda do produto.

Recado ao novo presidente(a). Há duas semanas aconteceu em Moscou a 6.ª Sessão da Conferência das Partes para a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, que está em vigor desde 2005, e tem a adesão de 180 países, incluindo o Brasil. As medidas têm conseguido diminuir o consumo de cigarro no mundo, principalmente na população mais jovem. Mesmo assim, segundo a Rádio ONU, ainda morrem mais de 6 milhões de pessoas todos os anos no mundo por causa do tabaco.

Independentemente de quem vença a eleição hoje, o compromisso com a saúde dos brasileiros segue em frente. Nesse sentido, as medidas que estão paradas na Justiça e outras que podem impactar ainda mais o consumo de cigarro entre os jovens precisam ser levadas adiante. Nunca é demais lembrar que 90% dos fumantes deram suas primeiras tragadas antes dos 15 anos. Que tal ampliar as ações que evitem esse contato precoce?

É PSIQUIATRA

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