CRACOLÂNDIA TEM PAIXÃO DE CRISTO

Moradores de rua encenaram crucificação

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2012 | 03h04

Na Rua Glete, altura da Praça Sagrado Coração de Jesus, antigo centro nevrálgico da cracolândia, ex-moradores de rua estão vestidos de guardas romanos. José Rinaldo, de 39 anos, que também morou nas ruas e hoje trabalha na entidade católica Arsenal da Esperança, é o Jesus Cristo de cabelos Rastafari e usa uma coroa de espinhos feita de latinhas de refrigerante.

Sexta-Feira Santa, 9h30, perto de 300 pessoas acompanham a via crúcis pelas ruas do centro. Próximo dali, ao meio-dia, Jesus Cristo foi crucificado na frente da Estação Júlio Prestes, representando o calvário dos moradores de rua em São Paulo. A cerimônia foi organizada pelo padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua.

Policiais militares que ficam em bases fixas na região central apenas observam a manifestação. Desde que a Operação Centro Legal começou, em 3 de janeiro, eles permanecem ocupando as ruas da região. A operação já prendeu 376 pessoas suspeitas de tráfico e 97 condenados foram capturados. Ainda foram internadas 415 pessoas.

Apesar da retirada de 883 usuários do circuito das drogas, as madrugadas seguem agitadas na região, nas Ruas Guaianases e Conselheiros Nébias. "Depois da operação, a situação mudou pouco. O que mudou foi o mapa", diz a pastora Mabel Garcia, da Casa Porto Seguro.

A caminhada e a cerimônia de crucificação seguiram repletas de simbolismos. Padre Lancellotti explica que o objetivo é mostrar que a polícia e as balas de borracha contribuem somente para aumentar o estigma da população de rua e não resolvem o problema. "O que resolve são solidariedade e políticas públicas."

Na cerimônia, os guardas romanos caçoam de Jesus, enquanto um mestre de cerimônias pergunta se outros moradores de rua não querem contar humilhações que também sofrem no dia a dia. Cinco se candidatam. Milton Barros, de 43 anos, diz que não consegue emprego porque não tem residência fixa. Quando passa o endereço do albergue onde vive, não obtém resposta. "Isso é desculpa de vagabundo, que não quer trabalhar", diz um dos guardas romanos.

Dois políticos também marcam presença no evento. O vereador Gabriel Chalita, candidato a prefeito pelo PMDB, participa do ato com assessores, que organizam entrevista coletiva para ele criticar a política municipal de combate ao crack. O senador Eduardo Suplicy chega sozinho, com moletom e tênis. Bate longos papos com alguns moradores de rua.

O missionário Luiz Fernando Viana, de 23 anos, é crucificado, simulando ter as mãos atadas a uma cruz de papelão. Usa farinha e corante vermelho para parecer sangue. Novos discursos e um Pai Nosso, numa Paixão de Cristo tipicamente paulistana.

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