JF DIORIO/ESTADÃO
JF DIORIO/ESTADÃO

Cracolândia tem ‘novo’ endereço: a Júlio Prestes

Para investigadores, a mudança pode ter sido uma ordem de traficantes; gestão Doria planeja instalar mais contêineres para viciados na região

Felipe Resk e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2017 | 21h47

SÃO PAULO - No intervalo de um mês, a Cracolândia está no terceiro endereço. Desde a megaoperação policial, no dia 21 maio, os usuários passaram a concentrar-se na Praça Princesa Isabel, já chamada de “nova Cracolândia”. O “fluxo” agora ocupa a Praça Júlio Prestes, 500 metros mais adiante e a uma quadra do coração da “antiga Cracolândia”. Para investigadores, a mudança pode ter sido por ordem de traficantes. A gestão João Doria (PSDB) planeja instalar novos contêineres para atender usuários de droga na região.

Estabelecida em uma área chamada de “Praça do Cachimbo”, a “nova” concentração fica no trecho da Alameda Cleveland com a Rua Helvétia. Com uma banquinha no meio do fluxo, um rapaz de boné e uma mulher de cabelo vermelho vendem cachaça e cigarro paraguaio. Em um prato, um tijolo de crack também é partido e negociado com usuários. O tráfico é à luz do dia, mesmo sem a proteção de tendas ou barracas. 

No local, usuários dormem em colchões e caixas de papelão. Há, ainda, carrinhos de supermercado que servem até como fogão improvisado. Alguns usam guarda-sóis para tentar se esconder ao consumir crack. Outros andam livremente com o cachimbo na mão. 

A Guarda Civil Metropolitana (GCM) e a Polícia Militar afirmam que a migração para a Júlio Prestes ocorreu de forma “espontânea”, na noite de quarta. Segundo relato de GCMs, um homem subiu em um dos brinquedos da Princesa Isabel, por volta das 22 horas, e anunciou que todos deixariam o lugar. Os usuários, então, começaram a recolher seus pertences. Imediatamente, a praça foi ocupada por equipes de limpeza da Prefeitura, além de integrantes da GCM e da PM.

“Deram um grito para todo mundo sair”, diz um usuário, identificado apenas como Silva. Segundo ele, os próprios colegas foram avisando depois uns aos outros. “A gente saiu aos poucos”, afirma. “Demorou para chegar todo mundo.”

Parte do grupo migrou para outros locais, como a Rua Amaral Gurgel. A maioria, contudo, seguiu a pé até a “Praça do Cachimbo”, sem ser impedida por policiais - ao contrário do que houve em vezes anteriores, em que viaturas da GCM e da Cavalaria da PM bloquearam o acesso ao antigo quadrilátero.

Outros fatores teriam influenciado. Como a Princesa Isabel está localizada entre avenidas de grande movimentação, como a Rio Branco e a Duque de Caxias, os usuários ficam mais expostos - o que se agravou com a instalação de iluminação nova na praça.

Recentemente, a Prefeitura também adotou a estratégia de limpar o lugar com água, duas vezes por dia, transformando a praça em um “lamaçal”. A medida será mantida no novo endereço. “Estava violento, a polícia reprimia muito”, diz um usuário.

Para investigadores, uma hipótese é de que o fluxo atendeu à ordem de traficantes para sair da Princesa Isabel, uma vez que a presença ostensiva da polícia teria atrapalhado o tráfico. Desde a megaoperação, 130 pessoas foram presas e 14 menores, apreendidos. Os policiais também recolheram R$ 91 mil e 56,7 quilos de drogas.

O secretário da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho, diz que a ordem do crime organizado é uma “suposição”, mas defende que o tráfico estava sendo “sufocado”. “E não vai ter trégua”, afirma.

Fluxo

A concentração na Júlio Prestes é menor do que a da Princesa Isabel. Segundo a Prefeitura, o número de usuários já estava caindo por causa da internação de dependentes químicos, que somavam 427 até a segunda-feira.

Apesar de estarem em uma área da “antiga Cracolândia”, os usuários não ocupam a Alameda Dino Bueno. No cruzamento com a Helvétia, viaturas da PM e da GCM montam guarda. “O que posso garantir é que a área do antigo ‘fluxo’ não vai ser ocupada”, diz Mágino.

Bem atrás da nova concentração, na Cleveland, a Prefeitura deve inaugurar mais 200 vagas em contêineres para alojar usuários, nos próximos dias. Outras 160 vagas serão abertas na Rua General Rondon. 


 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.