Cracolândia resiste à PM e de novo ruas lotam

Um ano e 9 meses após operação, usuários voltam à Luz e consomem crack livremente

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2013 | 02h09

Quatro mulheres circulam pelas Ruas Dino Bueno e Helvétia, no coração da Cracolândia. Duas aparentam ter menos de 15 anos e correm em direção a um bolo de gente para comprar pequenas pedras de um traficante que chega na quarta-feira à tarde. Uma jovem bonita, de cerca de 18 anos, vestindo shorts jeans e top brilhante dança funk na calçada na frente da caixa de som portátil. Um homem na casa dos 20 anos passa enrolado em um cobertor azul-claro como um fantasma, com feridas que parecem herpes em volta dos olhos.

A Cracolândia, com suas rotinas e sociabilidade únicas, onde diferentes tipos humanos se relacionam e circulam alucinados para cima e para baixo, voltou a funcionar a todo vapor em São Paulo. Enche de segunda a segunda, durante o dia e a madrugada. Em horário comercial, em um dos equipamentos da Prefeitura, na Rua Helvétia, que ainda não foi oficialmente inaugurado, passam cerca de 500 pessoas diariamente, o que indica que o número de frequentadores voltou a ser o mesmo dos "tempos áureos".

"Não se pode mais dizer quanto tempo vai levar para transformar a realidade deste espaço. Não é possível prever o fim da Cracolândia. O problema é mais complexo do que imaginávamos", afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeiras, coordenador do Programa Recomeço, uma das apostas do governo estadual para lidar com o problema.

Em janeiro do ano passado, na ação mais espetacular feita pelo Estado na região, as Polícias Militar e Civil ocuparam a Cracolândia, no centro de São Paulo, na operação apelidada de Dor e Sofrimento. O conjunto de medidas, que levou o governo a anunciar que a Cracolândia estava com os dias contados, buscava impedir o fornecimento de drogas e induzir consumidores ao tratamento.

Chegou-se a anunciar a prisão e internação de mais de 2 mil pessoas. Um ano e nove meses depois, a região mostrou sua capacidade de resistência, voltando ao estágio anterior à ocupação. Cresceu a quantidade de barracas nas ruas, onde os usuários de crack consumem a droga e vivem provisoriamente. Também há sofás velhos para o consumo da droga e bate-papo. A Helvétia chega a parecer uma pequena favela com habitações nas calçadas.

Operação. Há unidades móveis da PM na frente da Estação Julio Prestes e na esquina da Dino Bueno, mas, com o fim das abordagens, as "procissões do crack" acabaram. Homens circulam a pé e em carros pela Luz. Um dos policiais ouvidos pelo Estado, que pediu para não ser identificado, disse que a ordem é evitar as abordagens. "Agimos em caso de roubo, furto e tráfico. Também não pode usar drogas em público. Mas não fazemos mais as abordagens frequentes como antes."

As ruínas de prédios derrubados durante a ocupação ainda se acumulam sobre os terrenos e viraram um retrato da situação de abandono do quarteirão. No muro, uma das pichações diz "somente mais um louco". Os carros-pipa passam duas vezes por dia lavando as ruas. Lixo, madeira e colchão velho são recolhidos, situação que não impede que grandes volumes de entulho fiquem à vista.

"As ações violentas da polícia serviram só para provocar confusão e aumentar a violência entre os próprios moradores", diz o psicólogo Bruno Ramos Gomes, que trabalha no local desde 2004 e coordena a ONG É de Lei. Para ele, a Cracolândia é um polo de consumo de pedra na cidade que tem outros centros de atividades, como venda de produtos eletrônicos, de roupas e de outros produtos.

Mudou também o discurso da Prefeitura, que passou a articular uma ação integrada entre 11 secretarias para tentar enfrentar o problema. O equipamento a ser inaugurado se chama De Braços Abertos, nome escolhido em votação pelos dependentes, que também decidem as atividades que querem no local. "Acabar com a Cracolândia não é um trabalho para apenas uma gestão", afirma a coordenadora da área técnica de Saúde Mental do Município, Myres Cavalcanti.

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