MARCELO CHELLO / ESTADÃO
MARCELO CHELLO / ESTADÃO

Cracolândia: Praça Princesa Isabel tem barracas removidas pela Prefeitura de SP

Local passou pela primeira grande limpeza após o fluxo de usuários de drogas migrar para o espaço

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2022 | 17h26
Atualizado 04 de abril de 2022 | 19h53

SÃO PAULO – Conhecida como a ‘nova Cracolândia’, a Praça Princesa Isabel, no bairro Campos Elíseos, zona central da capital paulista, recebeu nesta segunda-feira, 4, a primeira grande limpeza realizada pela Prefeitura desde que o local viu o fluxo de usuários de drogas aumentar de forma significativa. Há cerca de duas semanas, ocorreu a poucas quadras dali uma dispersão da antiga Cracolândia, nos arredores da Praça Júlio Prestes, a mando do tráfico de drogas.

Por volta de 8h desta segunda-feira, dezenas de viaturas da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar chegaram ao local para dar suporte a funcionários da limpeza urbana da Prefeitura. Eles, então, passaram a limpar a praça e a remover parte das barracas dispostas no local. Recorridas pela população de rua como forma de proteção ao longo dos últimos anos, as tendas também são usadas para esconder transações em espaços de tráfico de drogas.

Conforme comerciantes da região, não houve conflitos durante a ação de higienização. A limpeza teria começado logo pela manhã e mais de dez caminhões da Prefeitura teriam retirado barracas da praça até por volta de 11h, quando o fluxo de servidores da limpeza urbana diminuiu. Anteriormente, a rotina de limpezas era frequente na Praça Júlio Prestes, mas não na Praça Princesa Isabel, relatam os comerciantes.

Após a remoção de parte das tendas, permaneceram no local algumas viaturas e um caminhão-pipa para limpeza da Princesa Isabel. Um ônibus da Polícia Militar também foi estacionado na praça.

Comerciante em uma lanchonete nos arredores da Princesa Isabel há cerca de quatro anos, Jeová Martins, de 43 anos, relata que a situação está desanimadora. “Estou até pensando em entregar o ponto”, diz. Ele relata que, na comparação com antes da pandemia e do fluxo de usuários da Cracolândia ter migrado para a praça, o movimento na lanchonete caiu pela metade. “A pandemia deu uma amenizada, mas aí veio esse problema aí”, diz Jeová, em alusão aos usuários.

“Atrapalhou bastante, o movimento caiu muito. Onde tem usuário, o pessoal fica com medo de ser assaltado”, diz o vendedor Aldo da Silva, de 32 anos. Ele calcula que, desde que houve a dispersão do antigo ponto da Cracolândia, o movimento no mercado onde trabalha há dois anos, na Avenida Rio Branco, caiu cerca de 30%.

Segundo ele, por não ter havido conflito nesta segundo, os comércios nos arredores da praça não fecharam durante a manhã, mas o clima geral é de desânimo. “Só tem moradores daqui mesmo, as pessoas de fora não vêm para cá mais. Muito comerciante foi embora”, diz Aldo, que acrescenta que a sensação de insegurança aumentou nas proximidades da praça.

"Você não anda segura no centro de São Paulo hoje em dia mais", afirma a vendedora Gabrielle Linhares, de 19 anos, que trabalha em uma loja de doces na região. "Sempre morei aqui, então eu já estou acostumada desde pequena, porque você acaba vendo. Mas antigamente era bem menos (insegurança)", acrescenta.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou ter retirado durante a ação de zeladoria realizada nesta segunda pelo menos 35 toneladas de lixo e materiais de uso permanente da Praça Princesa Isabel. Segundo a pasta, 12 caminhões foram carregados com madeira, lonas e sofás, que estariam montados em local público.

A Prefeitura complementou que a ação foi realizada de acordo com as regras do decreto nº 59.246/2020, que preserva artigos de uso pessoal. A zeladoria urbana foi acompanhada por técnicos da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e precedida por mais de 1,8 mil abordagens e 230 encaminhamentos sociais e terapêuticos.

A reportagem do Estadão acompanhou há duas semanas, após a dispersão da Cracolândia, uma outra ação de zeladoria da Prefeitura, dessa vez realizada na Praça Marechal Deodoro, em Santa Cecília. Na ocasião, foram recolhidos colchões, estrados de camas e objetos de médio porte de ao menos cinco pessoas em situação de rua. A ação contou com ao menos três viaturas da Guarda Civil Metropolitana.

Na última semana, o então governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse ter orientado a remoção de barracas da Praça Princesa Isabel. A declaração se deu durante evento de inauguração de uma passagem entre a Estação da Luz – que atende as Linhas 7-Rubi, 10-Turquesa e 11-Coral da CPTM – e o estacionamento da Sala São Paulo, espaço para concertos que integra o Centro Cultural Júlio Prestes. O espaço fica na vizinhança da Cracolândia.

“Onde você tem tendas, você tem o tráfico. Então, a orientação que dei ao secretário de Segurança Pública, junto com a Guarda Civil Metropolitana – porque esse é um tema da Prefeitura, não é um tema do Estado –, foi: ‘Barracas, não’”, disse Doria. “Onde você põe barraca – eu fui prefeito, eu vivi essa experiência – você tem ali os traficantes.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.