José Patricio/Estadão
José Patricio/Estadão

Cracolândia entra na rota da culinária típica

Imigrantes árabes, peruanos e africanos abrem restaurantes na região e começam a ditar moda

Artur Rodrigues, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2014 | 02h02

Eles deixaram seus países para trás e mudaram de vida. Em São Paulo, imigrantes trocaram de profissão e passaram a atrair pelo estômago os nativos a uma parte abandonada da cidade, a Cracolândia, no centro. O segredo é a tradicional cozinha latino-americana, árabe e africana, com ótimo custo-benefício.

Os restaurantes atraem não só moradores de bairros como Luz e República, mas também os chamados hipsters, público moderninho da cidade, que, às vezes, dita moda. O resultado é que parte dos restaurantes já figura nos principais guias gastronômicos. O mais conhecido deles é o Rinconcito Peruano, de Edgar Villar, de 35 anos.

Estudante de Literatura em Santiago, ele resolveu se mudar para São Paulo há 12 anos. "Trabalhei como camelô na Rua 25 de Março e resolvi abrir o restaurante depois que o rapa (polícia) levou tudo o que eu tinha", conta. Há três anos, surgia o Rinconcito, na Rua Aurora, na República.

Com acesso por uma escadinha discreta, o local passaria despercebido não fosse pelo entra e sai de peruanos e brasileiros. A decoração com tecidos coloridos e os videoclipes dão uma atmosfera exótica ao local. O principal prato da casa é o ceviche (peixe cru com especiarias, na foto), além do tradicional arroz chaufa, espécie de risoto condimentado, com vários tipos de carne, ovos e legumes.

Na esteira do sucesso do Rinconcito, outros peruanos têm surgido na região. Um deles é o Tradiciones Peruanas, na Avenida Rio Branco. Na Rua Guaianases, nos fins de semana, é possível encontrar até um quiosque vendendo ceviche. Na mesma rua, funciona o El Carajo!

Perto dali, na Alameda Barão de Limeira, fica o restaurante africano Biyou'Z. Ele foi aberto há cinco anos pela camaronense Melanito Piyouha, de 43 anos. Ela não se restringe à comida do seu país, com uma culinária com influências do Congo, Angola, Senegal e Nigéria.

Melanito veio ao Brasil a turismo e ficou. "Percebi que não havia restaurantes africanos no Brasil. O País precisa aprender mais sobre a cultura de seus povos de origem." Apesar de o local ficar em uma área com grande concentração de africanos, segundo ela, hoje a maioria da clientela é brasileira. O prato principal ali combina banana da terra e peixe fritos ao molho acebolado.

Três quarteirões separam a África do Oriente Médio na Cracolândia. Na Avenida Rio Branco, fica o restaurante árabe Habib Ali. O local é tocado pelo libanês Ahmad Merhi, de 45 anos, e sua família. O prato mais pedido por lá é o shawarma, conhecido aqui como kebab. Também é possível experimentar uma esfiha diferente das assadas no forno, feita no saj (chapa redonda). Entre os frequentadores, estão clientes de lojas da Santa Ifigênia, jovens descolados e imigrantes.

Étnico. Não é de hoje que a comida funciona como fator de interação entre imigrantes e paulistanos. O mesmo acontecia no século passado com italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, chineses e coreanos. É o que a historiadora Senia Bastos, professora do mestrado em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi, chama de "empreendedorismo étnico".

Segundo ela, a clientela inicial são os estrangeiros que se reúnem para matar as saudades da terra natal. "Eles funcionam como redes de informação, de trabalho, de lugares para ficar." Conforme vão crescendo, passam a fazer adaptação na culinária para atrair mais gente, principalmente os nativos, que passam a conhecer melhor a cultura dos imigrantes. "O paulista, cosmopolita, fica fascinado."

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