Cozinheiro perde tudo e é voluntário. Igual a 2008

ITAJAÍ

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

Marcionei Pontes está acostumado a preparar refeições para bocas famintas nos barcos pesqueiros em que é o cozinheiro titular. Aos 29 anos, passa até 60 dias no mar, onde se habilitou também como marceneiro naval. Mas, na sexta-feira à noite, sua habilidade no fogão foi posta à prova: ele era o chefe da cozinha do maior abrigo de Itajaí, a Paróquia São Cristóvão, e teve de fritar 100 quilos de peixe para 1.300 pessoas.

Na paróquia, estão 700 desabrigados. Talvez atraídos pelo cheirinho, outros 600 vieram das redondezas e de abrigos vizinhos. Enquanto preparava o jantar, Marcionei nem se preocupava em saber como estava sua família, também abrigada ali. "Estão todos bem aqui, então preciso trabalhar e ajudar os outros."

Sua mulher, Janete, e os 4 filhos receberam a mesma comida dos outros. Sem tratamento vip.

Não foi a primeira vez que Marcionei perdeu tudo. Como muitos ali, ele também foi vítima da cheia em 2008. Mas, da mesma maneira, foi voluntário três anos atrás. De barco, ajudou a resgatar famílias e trabalhou no centro de coleta de doações, onde conseguiu alguns móveis para si. Todos perdidos na enchente desta semana. "Minha casa é própria. Não quero ir embora, mesmo sabendo que enche."

Só que ele sabe que não dá para ficar como está. Então, planeja juntar o dinheiro que receberá em uma temporada de pesca de dois meses no Rio de Janeiro para erguer a casa a dois metros do chão. Entre uma ameaça de choro e um sorriso, ralava cenouras e beterrabas para o sopão de feijão que serviria ontem à noite. "Tenho que ajudar, né? Vou ficar deitado no colchão, como muitos fazem? Que tipo de exemplo eu estaria dando a meus filhos?"

A única coisa que incomoda Marcionei é saber que tem gente que reclama dele. "Mas é porque alguns estavam se servindo pela quinta vez e não deixamos." Reconhecimento de que a comida estava boa.

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