Fábio Vieira/FOTORUA
Fábio Vieira/FOTORUA

Covas busca imprimir seu estilo na gestão da Prefeitura

Prefeito assumiu em abril e abandona aos poucos projetos que eram marca do antecessor João Doria

Bruno Ribeiro e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), encerra o ano desativando aos poucos projetos de seu antecessor, João Doria (PSDB), enquanto procura definir as marcas que ele mesmo quer deixar na cidade, de olho em sua campanha para a reeleição em 2020.

A ideia de Covas é dar em 2019 novos ares à gestão: estimular políticas para bicicletas, trazer vida noturna para o calçadão do centro velho e um discurso de que prioriza as áreas sociais, da saúde e da educação. Ensaios nesse sentido foram visíveis no fim do ano: uma campanha de Natal no centro, com projeções em prédios públicos e festival gastronômico, e estímulos a bikes como alternativa ao trânsito travado na zona sul após a queda do viaduto da Marginal do Pinheiros.

Nessa guinada, a principal vitrine do antecessor - o programa SP Cidade Linda (de zeladoria urbana) - deixou de existir sem ser formalmente encerrado. Foi substituído por mutirões de poda de árvores, tapa-buraco, conserto de calçadas e limpeza de bueiros feitos longe dos holofotes. Nos últimos meses, essas ações ocorreram em 18 corredores viários. A proposta é de mutirões permanentes aos sábados nos 12 principais corredores da capital.

“Aquele momento do Cidade Linda foi o de retomada da zeladoria urbana como ação da cidade, que estava abandonada. Hoje, essas ações foram incorporadas ao trabalho cotidiano”, minimiza o secretário das Subprefeituras, Alexandre Modonezi.

Em uma reforma tocada após as eleições, Covas se cercou de aliados de sua própria geração. Exemplo é o retorno de Fabio Lepique, seu secretário executivo, nome com trânsito no diretório municipal do PSDB, que havia sido demitido por Doria. Mas buscou também tucanos mais experientes, como Mauro Ricardo para a Secretaria de Governo, já apontado como “homem forte” da gestão, e Vítor Aly para a pasta de Infraestrutura Urbana e Obras.

Além do Cidade Linda, que não produziu efeito prático, segundo aliados, há casos como o do Corredor Verde na Avenida 23 de Maio, zona sul, e o carnaval de rua. No primeiro, a empresa que havia se comprometido a fazer manutenção do corredor até 2020 abandonou o acordo, deixando a Prefeitura responsável pelo cuidado com a vegetação até conseguir firmar outro contrato. A avaliação de aliados é de que Doria tocou o projeto sem considerar problemas comuns, como vandalismo. Já no carnaval, os megablocos da 23 de Maio foram substituídos por desfiles em vias mais conectadas ao resto da cidade.

Mudanças.

Mais discreto que Doria, Covas publica no Twitter principalmente para dar respostas a queixas de cidadãos. No Instagram, fotos no trabalho se intercalam com imagens na academia ou com o filho. Já a agenda pública segue a linha do político tradicional: visitas diárias a pontos da periferia para inaugurações de equipamentos públicos.

 

 

“Aquelas reuniões do Doria, com todo o secretariado reunido e o tempo de fala cronometrado, não existem mais. Agora, há despachos mais longos, um secretário por vez. É mais produtivo”, destaca um aliado.

O desabamento do viaduto da Marginal do Pinheiros dominou a agenda de Covas de 15 de novembro para cá. A avaliação interna é de que ele não se desgastou. “Teve serenidade de um político sênior ao não dar prazos antecipadamente, criando expectativas”, diz Eduardo Tuma (PSDB), presidente eleito da Câmara e ex-secretário municipal. Covas só deu o prazo de cinco meses para reabrir a via um mês após o acidente. Para adversários, o governo ainda está sem rumo. “Está apagando marcas de Doria, mas não disse o que põe no lugar”, afirma o vereador Antonio Donato (PT). 

Verba.

Mesmo aliados veem pouca margem financeira para imprimir grandes marcas. Embora as contas estejam no azul, há pouca manobra para investimento. Pesou o fato de o plano de concessões e privatizações de Doria não ter saído do papel por entraves burocráticos.

A capital deve fechar 2018 com investimento de R$ 2,5 bilhões, 40% do previsto no orçamento. O vereador aliado Ricardo Nunes (MDB), da Comissão de Finanças da Câmara, aponta três gargalos: precatórios, previdência municipal e subsídio ao transporte público. Este mês, foi aprovada a reforma da previdência, que deve reduzir o ritmo de aumento do déficit do setor. No caso dos ônibus, a tarifa vai aumentar de R$ 4 para R$ 4,30 e outra aposta é a licitação do setor, marcada para o dia 23.

DESAFIOS.

Prioridades. Procurando deixar marcas de sua gestão, Covas deve focar, ao longo de 2019, em ações na área de saúde e educação, além de estimular políticas para bikes e revitalização do centro velho.

Antagonismo. O atual prefeito distanciou a sua imagem da do ex-prefeito João Doria. O Cidade Linda, principal ação de Doria na zeladoria, foi sendo substituído paulatinamente por ações regulares e com menos divulgação. O uso das redes sociais ocorre de forma mais moderada com Covas, que tenta ainda encontrar saídas para projetos problemáticos, como o Corredor Verde da Avenida 23 de Maio.

Investimentos. Para deixar a sua marca, no entanto, Covas terá de superar as dificuldades orçamentárias para realização de investimentos substanciais.

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