Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Cortejo toma ruas do centro histórico para comemorar os 466 anos de São Paulo

Espetáculo itinerante saiu do Pátio do Colégio, marco do nascimento da cidade, e contou com intervenções cênicas e apresentações musicais de Elba Ramalho, Karol Conka, Skank e Ney Matogrosso

Marina Vaz, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 18h13

SÃO PAULO - Enquanto as primeiras pessoas se concentravam em torno de um trio elétrico, que exibia desenhos inspirados na obra da pintora Tarsila do Amaral, o Grande Cortejo Modernista abria as comemorações do aniversário de 466 anos de São Paulo, neste sábado (25), em um pequeno palco montado ao lado do Pátio do Colégio. Na frente do icônico sino da praça onde nasceu a cidade, o Coral Paulistano se apresentava com o Coral Guarani Amba Vera, com integrantes vestindo trajes brancos. Os mestres de cerimônia eram os atores Pascoal da Conceição e José Rubens Chachá, que interpretaram, respectivamente, Mário e Oswald de Andrade.

"Eu virei um pouco o Oswald de Andrade oficial de São Paulo", diz Chachá ao Estadão, antes de entrar em cena. Não foi a primeira vez que os artistas deram vida a esses personagens emblemáticos da literatura brasileira. E, provavelmente, não será a última. Chachá, que já interpretou Oswald no cinema, no teatro e na televisão, diverte-se ao contar que até já espera ser chamado para as comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna, em 2022. 

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Revisitar Mário de Andrade é revisitar aquela figura que lutou pela cultura, pela cultura indígena, afro, cabocla, pelo brasileiro em si
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Pascoal da Conceição

Ao longo do trajeto pelas ruas do centro histórico, com apresentações musicais em sequência, várias intervenções teatrais foram feitas. O personagem Mário de Andrade voltou a aparecer, por exemplo, ao lado de Anitta Malfatti, interpretada pela atriz Virgínia Cavendish. Em uma de suas últimas falas, Pascoal retoma um texto de Mário, em que ele sentencia: "A cultura é tão necessária quanto o pão".

Toda vez que vai interpretar Oswald, Chachá conta "se jogar" nos livros do autor, para absorver seu espírito "anárquico, libertador , vanguardista, moderno por excelência". Sobre o roteiro, o ator conta: "É um texto escrito pelo Alexandre Del Farra, que sofreu alguns pequenos cortes; por ser um evento para milhares de pessoas, nós tivemos de deixar um pouco mais simples, mas 90% é o texto que nos mandaram. Mas não tem didatismo algum, e isso é um fato positivo. Eu acho que foi um formato bacana que se assumiu".

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Como é um cortejo que algumas pessoas vão abandonar e outras vão seguir até o final, alguma coisa acaba sendo perdida por alguém, então, é uma coisa mais lúdica, falando da cidade de São Paulo, dos personagens
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José Rubens Chachá

Foi Chachá o responsável por apresentar Elba Ramalho e convidar o público a segui-la no trio. Pouco antes, artistas vestidos com roupas típicas da década de 1920 e usando pernas de pau, movimentavam-se à frente, dando início ao cortejo. Seguindo pela Rua Boa Vista até o Largo São Bento, a cantora animou o público com músicas como Xote das Meninas, de Luiz Gonzaga, e Esperando na Janela, sucesso na voz de Gilberto Gil.

"São Paulo tem a potência de uma cidade que abriga, que recebe pessoas, uma cidade itinerante, cosmopolita. Existem paulistas que nasceram aqui, mas existem vários Estados brasileiros aqui", disse ao Estadão Elba, pouco antes de subir ao palco. "Eu acho legal comemorar esse aniversário fazendo esse passeio. O que significa, para mim, esse cortejo é abraçar todos os povos, abraçar tudo o que a cidade abraça, ao longo de sua história.

Em cima de um pequeno trio elétrico, Elba cantou um repertório eclético, com clássicos de Alceu Valença, como Anunciação; hits de sua carreira, como Banho de Cheiro; e até um rock dos Titãs em ritmo de axé, Sonífera Ilha.

Depois, Elba deu lugar a artistas como Karol Conka e Rashid, que se apresentaram no Largo São Bento, ponto considerado o berço do hip hop paulistano.

Já os Demônios da Garoa apresentaram clássicos do samba paulistano a partir da sacada do Edifício Sampaio Moreira. O público também acompanhou uma apresentação ds musicista Leda Cruz, em um piano suspenso no ar por cabos. E, então, o cortejo seguiu até o Teatro Municipal, onde Marcos Palmeira interpretou o compositor Villa-Lobos, ao lado de outros personagens históricos do modernismo brasileiro. 

De lá, o desfile continou com o bloco Pagu pelo Largo do Paiçandu e, então, com outro bloco, o afro Ilú Obá de Min, até a Galeria do Rock, onde a banda Skank se apresentou. Na esquina entre as avenidas São João e Ipiranga, um pequeno palco suspenso foi montado para receber Ney Matogrosso, ao lado do pianista Leandro Braga.

Mas, no show que fechava o cortejo, a estrutura do som deixou a desejar. A menos de 100 metros do palco, ainda era difícil ouvir a voz do cantor e sua interpretação sempre impactante de canções como Último Desejo e Nada por Mim. A situação gerou coros frequentes (e constrangedores) de "aumenta o som" por parte da plateia.

Na plateia a céu aberto

Aproveitando a festa com uma amiga, Catarina Schiesari, de 21 anos, conta que soube do evento por meio de sua avó. Ela foi para ver a banda Bixiga 70, que tem cada vez mais destaque na cena paulistana, e se surpreendeu ao saber que o grupo estava no cortejo para acompanhar Elba Ramalho, e não para tocar suas músicas autorais. Chamou a atenção de Catarina a presença de pessoas de várias idades, incluindo idosos, mas ela acha que o trajeto de Elba poderia ter ocorrido em um lugar mais aberto. "O show foi bom, mas eu acho que o som estava meio abafado, por ser numa via mais fechada."

A publicitária Heloísa Carneiro, de 37 anos, esteve presente pelo segundo ano consecutivo na festa de aniversário de São Paulo. Para ela, o formato de cortejo é um ponto positivo desta edição. "Dessa forma, você consegue aproveitar melhor toda a programação", afirmou.

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Com atrações em palcos separados, você sempre acaba perdendo algo legal; você tem que ser mais seletivo
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Heloísa Carneiro

Isabel Maria Tosetti, de 69 anos, conta que não sai do centro, e, por sua ligação com literatura (ela é formada em Letras), achou particularmente interessante a ideia de fazer um cortejo inspirado na Semana de Arte Moderna de 1922. "É maravilhoso. Isso agrega (ao público) algo que fez parte da nossa história, resgatando escritores e artistas que muito jovens não conhecem, como o Mário e o Oswald de Andrade, a Tarsila, a Anita (Malfatti)..."

Para Eli Ribeiro, de 55 anos, a festa em formato de cortejo também acaba sendo"um passeio pelo centro", só que com mais segurança, algo que, no dia a dia, ela afirma não conseguir fazer.

Na multidão, algumas pessoas já exibiam brilhos e adereços de carnaval, e o que se via era uma plateia de faixa etária variada, com casais acompanhados de crianças e também idosos.

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