Corretor vai enfrentar pegadinha e suspensão

O desempenho dos examinadores no Enem será acompanhado por supervisores diariamente; quem cometer erros graves pode ser eliminado

RAFAEL MORAES MOURA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h03

Tanto os candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) quanto os corretores das redações serão avaliados. Mantido sob monitoramento constante de coordenadores e supervisores, o examinador deverá apresentar desempenho superior a 7 - numa escala de 0 a 10 - e ainda enfrentar "redações-pegadinha". Hoje, 7,1 milhões de inscritos farão a redação no segundo dia de provas.

O Estado teve acesso a documentos que detalham a correção das redações do Enem 2013, um processo cercado de sigilo e alvo de críticas após a polêmica, na edição passada, de textos com receita de macarrão instantâneo e o hino do Palmeiras.

Em média, cada redação do Enem demora 2,9 minutos para ser corrigida, ou 174 segundos - tempo que varia em função do tamanho do texto e da complexidade do tema. Embora já tenha sido realizada a primeira parte do treinamento, os corretores só serão informados do tema hoje, com os alunos. Depois, haverá um novo treinamento.

O desempenho dos corretores do Enem será acompanhado por superiores diariamente. Será verificado se há notas altas demais, baixas demais, se há lentidão na correção ou rapidez. São 37 itens de observação.

Todos esses aspectos são considerados em uma complexa equação que confere ao corretor do Enem nota de 0 a 10. Ao não atingir a média, a distribuição de novas redações é suspensa por 48 horas. O supervisor é acionado para verificar o que está ocorrendo e aconselhar ao corretor, por exemplo, que faça a releitura do manual de redação. O corretor tem até duas chances de recuperação; na terceira, é eliminado.

As exigências não param por aí. De cada lote de 50 redações enviadas pelo sistema ao corretor, há duas "pegadinhas": a redação referência, chamada de "redação ouro", já corrigida pela equipe de especialistas, e a "redação múltipla", que passa pelo conjunto de corretores. O objetivo é avaliar se há desvios.

O governo garante a eficiência do Enem. "O sistema de correção das redações está funcionando, é complexo, muito sério, feito por professores experientes", disse ao Estado Luiz Cláudio Costa, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela prova.

Brincadeira. No Enem 2012, redações debochadas conseguiram tirar nota 500 (o máximo é 1.000). A má repercussão do episódio levou o Ministério da Educação (MEC) a mudar os critérios usados na correção, prevendo que serão anuladas dissertações que apresentem "parte do texto deliberadamente desconectada com o tema que foi proposto".

O Estado apurou que a questão das inserções indevidas deverá ganhar destaque na segunda etapa de treinamento dos corretores, por dar margem a múltiplas interpretações. Há casos de alunos que deixam na própria redação recados aos examinadores, como "Fiz a redação direitinho?" e "Que Deus te abençoe". A orientação ao estudante é que não deixe nenhum aviso na prova.

Todas as redações do Enem são corrigidas por dois corretores independentes, que não têm conhecimento da nota atribuída pelo outro.

Nos casos em que houver discrepância superior a 100 pontos, ou uma discrepância maior do que 80 pontos em qualquer uma das cinco competências avaliadas, a redação vai para um terceiro corretor. Nos casos em que nem ele mesmo chegar a um consenso com os outros dois, o texto vai para uma banca de três professores, que dará a nota final.

Mulheres são 80% dos avaliadores, segundo Inep.

A correção das redações do Enem vai mobilizar 8.795 corretores, contingente 54,46% superior à edição do ano passado. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), 79,8% dos corretores são mulheres e 20,2%, homens. Todos são graduados na área de Letras com formação em Língua Portuguesa.

O treinamento deve se estender por um período de 136 horas, presenciais e a distância. Em 2012, a capacitação levou 100 horas e, em edições anteriores, apenas oito. O Estado apurou que as redações serão corrigidas entre 12 de novembro e 20 de dezembro. Com o aumento do rigor na correção das redações, o Inep estima que 52% dos textos sejam avaliados por um terceiro corretor - no ano passado, a proporção foi de 26%. / R.M.M.

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