Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Corregedor da PM de São Paulo vira coach nas horas vagas

Responsável por fiscalizar corporação de quase 85 mil pessoas, coronel Marcelino Fernandes oferece cursos motivacionais

Brenda Zacharias, Carla Menezes, Isaac de Oliveira, Levy Teles, Luísa Laval e Marina Cardoso, Especiais para o Estado

06 de janeiro de 2020 | 12h00
Atualizado 06 de janeiro de 2020 | 18h37

SÃO PAULO - Uma música de fundo tenta recriar o clima épico. Projetado contra a parede, o slide expõe o tema da palestra: “O que é o sucesso?”. O coach Marcelino Fernandes - de 54 anos, com careca reluzente, de terno bege e camisa bordô - dá conselhos à plateia enquanto caminha a passos firmes de um lado para o outro da sala. “Sonhos devem ser transformados em metas e metas em realidade. Mas, quando você sonhar, por favor, sonhe alto. Mire na Lua. Porque, se você errar, estará entre as estrelas.”

Entusiasta do coaching, Fernandes está à frente de cursos motivacionais desde 2013. Embora calcule já ter palestrado para mais de 25 mil alunos, esta não é sua principal atividade. Fora da sala de aula, ele atende por coronel Marcelino, o corregedor-geral da Polícia Militar. Em outras palavras, é o responsável por chefiar investigações de crimes cometidos por policiais - ou contra eles - em São Paulo.

Na Corregedoria, o coronel Marcelino deveria cumprir expediente de 40 horas semanais, mas costuma passar do horário todo dia, na tarefa de fiscalizar a corporação com quase 85 mil homens e mulheres, o maior efetivo do Brasil.  Para conciliar com as jornadas de coach, Fernandes se acostumou a dormir, segundo ele, quatro horas por noite. “Em dezembro, tiro férias e é quando acontece a maioria dos meus cursos”, diz.

Entre advogados da área de Direito Militar, ele é visto como corregedor "rígido", mas "garantista". Sob seu comando, o órgão atuou em uma série de casos emblemáticos, entre eles o assassinato da PM Juliane Duarte, executada pelo crime organizado em 2018. Ele também chefia a investigação sobre a morte de nove jovens após ação em um baile funk em Paraisópolis, em dezembro.

Já como coach, Fernandes costuma explorar a própria história em palestras. Filho de um cabo da PM, ele conta que trabalhou na juventude como auxiliar de garçom, vendeu pastel na feira e até engraxou sapatos em rodoviária. Hoje, no posto de oficial superior, recebe um contracheque mensal de R$ 25.237,98, segundo o Portal da Transparência do governo.

No Youtube, há palestras de Fernandes com mais de 23 mil visualizações. Também acumula fãs nas redes sociais - só no Instagram, onde se apresenta como “PM de Cristo” e publica pílulas diárias de conselhos, são 9,6 mil seguidores. “Nunca desista... A realização de seu sonho pode estar para acontecer ainda nesse ano, acredite e já agradeça! O nome disso é fé!”, diz em uma das mensagens.

 

Para chegar à posição de comando na PM, um episódio da adolescência teria sido decisivo, segundo relata nos cursos. Certa vez, viu militares batendo continência para “um cara cheio de medalha, de quepe e coisas douradas”. Impactado pela cena, Fernandes teria comentado em voz alta: “Vou ser coronel”. Ao ouvi-lo, o pai, que era policial de baixa patente, reagiu. “Moleque, para de falar besteira.”

O “segredo” seria o método “Mentalização Ativa Intuitiva para o Sucesso”, o Mais, do qual Fernandes se declara criador. Em resumo, o Mais consiste em mentalizar sonhos e objetivos, para alcançá-los de maneira mais prazerosa. “Se você tiver vontade interior e for sua missão, com certeza vai conseguir”, afirma o coach ao Estado. “Todo mundo consegue dentro da sua crença, da ética, da honestidade. Tudo é possível.”

Além de membro do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC) e da Sociedade Brasileira de Coaching (SBC), Fernandes apresenta no currículo uma formação em programação neurolinguística (PNL). Para o coaching, ele diz aplicar conceitos de PNL e também de física quântica.

O best seller de autoajuda O Sucesso Não Ocorre Por Acaso (1992), do cardiologista Lair Ribeiro, foi a primeira inspiração de Fernandes. Entre as suas referências, ainda aparecem os filósofos brasileiros Clóvis de Barros Filho e Mario Sergio Cortella, além de Napoleon Hill, Joseph Murphy e Dale Carnegie - estes últimos, nas palavras do coach, “os três mestres do sucesso”.

Aluna da primeira turma, a advogada Angela Bello aprova o método. “O curso me ajudou demais. Depois de participar, tomei coragem para abrir meu escritório e trabalhar por conta própria”, diz. Admiradora de Fernandes, a advogada Deomira Dias afirma que o coach a ensinou a “seguir um caminho que leve a algum lugar”. Segundo conta, foi por causa do curso que decidiu entrar na faculdade de Direito aos 50 anos.

Jornada dupla

Na Corregedoria, o coronel Marcelino é benquisto por advogados com experiência na defesa de PMs. Assim que assumiu o posto, uma das suas primeiras decisões foi desativar a carceragem que funcionava no órgão - o que agradou a categoria e foi interpretado por defensores como sinal de respeito a direitos humanos.

Presidente da comissão de Direito Militar da OAB São Paulo, Fernando Capano diz que nunca recebeu queixa de abuso sobre a condução de processos desde que ele assumiu o posto. "Embora seja linha dura, é bem legalista", afirma.

Entre os casos recentes, está o afastamento de 31 PMs que teriam participaram da ação no pancadão de Paraisópolis. "Acompanhei as oitivas dos policiais. Até segunda ordem, está tudo dentro do devido processo legal", diz o advogado, que representa agentes da ocorrência.

O advogado João Carlos Campanini avalia que, comparado a antecessores, o coronel Marcelino demonstra mais prudência na hora de punir PMs. "Não é que passe a mão: é que ele é bastante justo", afirma.

Para ele, a exceção teria sido em 2019, quando decidiu expulsar, às vésperas do julgamento em segunda instância, três policiais condenados pela chacina de Osasco e Barueri - um deles, seu cliente. "Foi a única situação que, no meu entender, faltou um pouco de tato, mas também não sei se houve ordem de cima."

"Acompanhei a passagem de cinco corregedores, seguramente o coronel Marcelino é o mais acessível à advocacia paulista. Recebe todos no gabinete", diz a advogada Flávia Artilheiro. "Mas também é um corregedor rigoroso. Esteve à frente de diversas investigações de vulto, como a Operação Ubirajara que prendeu 54 policiais", afirma.

Tida como a maior da história da Corregedoria, a ação aconteceu em dezembro de 2018, na capital, e mirou agentes que estariam recebendo dinheiro do tráfico.

Embora tenham atuação oposta no dia a dia, Flávia é elogiosa ao corregedor e relata que até já participou do curso oferecido pelo coronel. "Gostei muito, as técnicas e ferramentas que ele fornece foram muito úteis", afirma "Recomendei para o meu pai."

Algumas das atividades de coaching oferecidas por Fernandes são gratuitas. Já no Instituto Legale, onde ele é diretor acadêmico e dá aulas de Direito Administrativo e Didática, é preciso pagar para fazer parte das turmas. O coronel também ministra cursos de curta duração que custam R$ 99.

Pelo regimento disciplinar da PM, nenhum policial pode trabalhar de forma remunerada fora da corporação - ainda que, na prática, o “bico” seja uma alternativa comum para driblar o salário baixo. As exceções são para atividades culturais ou educacionais, permitidas pela norma.

Professor de Direito Administrativo e Empresarial da Universidade Mackenzie, Armando Rovai afirma que a atuação do coronel Marcelino como coach é legal. “Desde que destinada ao conhecimento, não vejo problema nenhum”, diz. “Acho até salutar um servidor público, com experiência efetiva e preparo acadêmico, transmitir essa quantidade de conhecimento aos seus alunos.”

Especialista em Segurança Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rafael Alcadipani concorda que não há irregularidade, mas pondera que o corregedor-geral representa o órgão responsável por fiscalizar as regras da PM e, portanto, sua atividade fora da corporação pode incentivar outros policiais a cometer infrações. “Percebo que existe uma permissibilidade muito grande com relação aos bicos dos policiais por causa da situação financeira”, afirma.

Por sua vez, o coronel Marcelino é da visão que dificilmente outra atividade prejudica a rotina policial. “Não dá para ter um mecanismo para mensurar: ‘Está cansado? Está com bico’. Não dá pra fazer essa matemática." 

Em nota, a PM informou que foram instaurados ao menos 338 procedimentos disciplinares por “bico” até novembro deste ano. Desses, 130 policiais foram punidos por transgressão, os demais processo estavam em andamento.

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