Corredor industrial ameaça reduto de Mata Atlântica no cinturão verde de SP

Pelo Plano Diretor de Embu das Artes, 2,4 milhões de m2 em área de preservação serão comprometidos; projeto libera verticalização de bairros

Nataly Costa, O Estado de S. Paulo

17 Abril 2012 | 22h30

SÃO PAULO - A menos de 30 km do centro de São Paulo e um dos últimos redutos de Mata Atlântica remanescentes no entorno da capital, a Área de Preservação Ambiental (APA) Embu Verde pode virar um reduto industrial. É o que prevê o novo Plano Diretor de Embu das Artes, na Região Metropolitana, cuja votação está marcada para esta quarta-feira, 18. O projeto permite ainda a verticalização, com prédios de até dez andares, em bairros que hoje só têm casas.

Além de uma área verde importante, a APA serve de hábitat para vários animais em ameaça de extinção, como onça-parda e jaguatirica. Por ela também passará uma nova estrada, para ligar esse corredor de indústrias à Rodovia Régis Bittencourt, criando uma rota para caminhões.

O novo "corredor empresarial" - onde poderão se instalar indústrias de "baixo e médio impacto" - compromete uma área de 2,4 milhões de m² dentro da APA, que tem 15,7 milhões de m² no total e faz parte da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo. Instituído pela Unesco, o cinturão envolve mais de 70 municípios no entorno da capital e abrange as poucas áreas em que o adensamento e a especulação imobiliária ainda não chegaram.

Qualidade de vida. Para estudiosos do meio ambiente e clima, com o projeto, a qualidade de vida dos moradores da região está ameaçada - não só hoje, mas em um futuro próximo.

"A falta de verde no entorno interfere diretamente na temperatura da megacidade e, principalmente, na quantidade de chuvas que teremos nos próximos anos, cada vez mais fortes", diz o pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cptec/Inpe), Paulo Nobre.

"A configuração de onde está o sítio urbano de São Paulo é muito peculiar. A cidade é uma bolha de calor", explica o climatologista João Lima Sant’Anna Neto, professor da Universidade Estadual Paulista Julio Mesquita Filho (Unesp). "Por isso a Mata Atlântica é tão vulnerável. Qualquer desmatamento coloca o equilíbrio climático da região em risco."

Especulação. Principalmente por causa do Rodoanel Oeste, que passa no meio de Embu das Artes, a especulação parece já ter alcançado a cidade: o metro quadrado em bairros como o Jardim Santa Tereza, que com a aprovação do Plano Diretor poderá ter prédios, já chega aos R$ 4 mil - antes, custava menos de R$ 100.

A votação do plano foi tema de discussões acaloradas entre moradores, ambientalistas e prefeitura. Duas audiências públicas chegaram a ser suspensas no fim do ano passado pela Justiça, sob alegação de que a prefeitura não deu a devida visibilidade ao tema. No começo deste ano, foi a vez de a prefeitura ganhar na Justiça o direito de prosseguir com as discussões - ao todo, 40 audiências públicas.

Os moradores alegam que o projeto do Plano Diretor foi alterado nas últimas reuniões e que o corredor industrial só apareceu nos últimos mapas apresentados. "O nome da cidade é Embu das Artes e você chega e só encontra galpão, indústria?", questiona o presidente da Sociedade Ecológica Amigos de Embu (Seae), Leandro Dolenc.

Para o artista plástico e ex-secretário de Turismo da cidade Renato Gonda, o Plano Diretor promove a destruição da vocação turística de Embu - que recebe até 20 mil pessoas na feira de artes nos fins de semana. "O Plano Diretor limita o turismo ao centro histórico. Por que, em vez de indústrias, não incentivar empresas com potencial de desenvolver o turismo?, diz.

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